sexta-feira, 15 de outubro de 2010

R29 O anjo e o sol

Depois de todos os sentimentos...
Na última semana recebi um telefonema me avisando de que um primo meu havia morrido. Após uma longa enfermidade que lhe custou um sofrimento enorme, havia finalmente descansado. A família, que havia feito todo o possível por ele, tinha que confrontar essa perda e a dor.
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Já conhecendo essa dor que então eles sentiam pela primeira vez, fui até o velório. Uma das coisas que sempre fiz em velórios foi manter uma presença apagada, discreta. Afinal o que dizer para as pessoas que perderam um parente? A morte é tão absoluta, tão avassaladora que só nos restam frases quase balbuciantes para dizer, frente à dor e às lágrimas dos parentes.
Ao chegar encontrei sua esposa e seus filhos chorando em volta do caixão. Ao ver seu rosto dele agora em paz, tentei não me emocionar, mas logo vieram as lágrimas. Abracei todos e junto com eles chorei também. Ao mesmo tempo, em seu rosto vi que toda a dor que o marcara havia desaparecido. Exatamente como vi no rosto de minha mãe em seu enterro, o rosto contraído e carregado de dor dera lugar a um rosto plácido. A vida se fora, mas nenhuma dor mais existira no momento final. Esse é o rosto dos que morrem em paz, confortados pelo amor da família em volta.
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Sua esposa e seus filhos haviam dito a ele todas as palavras de amor, dado a ele todo amparo que uma pessoa assim precisa nos momentos da doença e nos momentos finais. Agora choravam a perda que tinham temido, mas eu sabia de uma coisa. Em seus corações, em seu íntimo existia ao mesmo tempo que a dor, a paz de quem havia cuidado e amparado o ser amado. O homem que fora esposo e pai havia tido todo o amor que precisara até o fim.
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Impossível não se emocionar com as lágrimas da esposa, com a dor do filho e com as palavras de despedida da filha cujas lágrimas molhavam seu rosto. Eu via ali uma família que velara por quem amara até o último momento. De forma surpreendente, quando vi, estava ajudando a confortar todos eles. As palavras, o amparo, a forma de dissipar aquela dor, tudo vinha de uma forma natural de dentro de mim. Quando entramos no cemitério, ví a estátua de um anjo, velho conhecido meu de tanto tempo. Ao vê-lo enquanto ajudava a carregar o caixão, pude compreender.
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Sou o último da minha família. Para meu pai, meu irmão e minha mãe pude dedicar essas palavras, esses momentos. Entendi porque então, ao mesmo tempo com lágrimas nos olhos, me portava daquela forma, confortando os que ali estavam pela primeira vez.
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Eu tinha antes dito as mesmas palavras, derramado as mesmas lágrimas, trazido os corpos para o descanso final, nada daquilo me era desconhecido. A mesma estátua que eu sempre vira ali, passando em sua frente indo para o túmulo, de novo estava ali sob aquele sol claro daquela manhã ao mesmo tempo tão triste e tão linda.
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Era triste porque era a perda de uma vida. Esposa e filhos tinham que suportar aquilo, aceitar o inevitável. E era linda porque eu via em suas lágrimas o amor que haviam dedicado a ele, a dor que sentiam. A homenagem final, as lágrimas, a tristeza profunda, desesperada, mas com a certeza de que haviam feito tudo o que era possível, até o último momento. E haviam dado todo o amor possível até o fim. Se a dor os atingia, eu sabia que sempre se lembrariam daquele momento emocionados e com lágrimas, mas nunca com algum fantasma em suas consciências, como o que persegue os que deixaram de dizer palavras de amor, como aqueles que deixaram sozinhos quem lhes estendeu a mão pedindo socorro.
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Eles se lembrariam daquela manhã com dor, mas tão iluminada quanto aquele anjo por tudo o que haviam feito de bom.
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No momento final coloquei sobre o caixão uma flor e ajudei a descê-lo. Abracei cada um deles e suas últimas lágrimas ainda caíam quando nos retiramos. Despedi-me de todos que se iam e enquanto os parentes deixavam o cemitério, peguei uma florzinha no pequeno jardim que ladeia os muros da entrada e voltei, passando na frente do anjo, para deixá-la no túmulo da minha família.
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O dia era claro, as lágrimas já tinham ido, deixei aquela florzinha ali, como uma lembrança e depois de meditar um pouco, me retirei. A manhã continuava linda, o sol de um brilho intenso. Sobre a dor e o amor o sol brilha assim.
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O que podemos fazer, pensei enquanto passava novamente na frente do anjo, é que por tudo o que façamos, ele venha a brilhar dentro de nós, mostrando apesar da dor, os sentimentos mais bonitos que tivemos um dia para quem esteve do nosso lado até o último momento, até a última lágrima.
Apesar das lágrimas, então teremos dentro de nós uma manhã brilhante para ver e não algo para temer.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

L04 O castelo e a queda

Deve ser doloroso...
No aspecto da religião cada um tem sua posição. Alguns vivem como crentes fiéis, uma parte considerável vive em dúvida silenciosa e uma parte menor ainda vive descrente. Estou nessa minoria, a dos descrentes, mais comumente chamados de ateus. Mas nem por isso deixo de acompanhar as religiões. Vez ou outra entro numa igreja. Agrada-me ver em certos momentos a delicadeza da liturgia. Em algumas datas, vejo a procissão de fiéis passando contritos. Em outros dias, mais animado, entro em igrejas evangélicas para ver as pregações furiosas do pastor, ameaçando a todos com o inferno, que ele descreve em cores vivas, aos berros, enquanto que em certas igrejas, o pastor é mais calmo e fala em salvação. Mas no fundo essa fé me parece tão frágil quanto um castelo de cartas.

Acreditar num deus e rezar para ele faz parte do costume das coletividades humanas há milhares de anos, desde que o ser humano estruturou-se em sociedades. Para quem não tem essa crença, é um fenômeno interessante e que pode ser acompanhado com uma certa isenção. Usualmente, sempre que tomo um café, costumo escutar a rádio católica Canção Nova. Alguns momentos da pregação dos padres são francamente risíveis pelos absurdos proferidos em certos sermões. Em outros vê-se como a crença pode ser como uma faca de dois gumes. Se para o fiel é um caminho de consolação, pode ao mesmo tempo ser um caminho de desolação.
Foi o que pude acompanhar na noite de ontem, em um dos programas da noite em que o locutor, um padre chamado Paulinho recebia ligaçõe, para orar pedindo a intercessão de Jesus, Maria e demais santos em nome de quem ligasse para ele com algum problema de saúde ou coisa parecida. Sucediam-se as ligações com pedidos que iam desde pedidos de cura de uma artrite até um bom encaminhamento do pedido de emprego.

Ligou então uma mulher, que em poucas palavras explicou seu caso. Pedia para rezar junto com o padre para que a intercessão de uma divindade cristã a curasse das vertigens constantes que tem desde que sofreu um acidente há muitos anos. Com a voz embargada refez seu pedido e o padre disse a ela para repetir a oração junto com ele.

Aos poucos começou tudo a se embaralhar. Tentando acompanhar a reza do padre pelo rádio e pelo telefone ao mesmo tempo, a pobre mulher se perdia. Prestei atenção e lamentei o acontecido. Se ela tinha tanta fé a ponto de fazer a ligação, era perceptível a forma triste e inapelável com que o pretendido milagre já começava a dar errado só com isso. Mais que todos os ouvintes ela deve ter percebido isso.

Vendo o descompasso entre a reza dele e a da mulher, o padre pediu a ela para desligar o rádio. Ela pediu um instante e então, para completar a tristeza, a ligação caiu. Ficou o padre tentando comunicar-se com a devota, que em momento de extrema necessidade se via, por assim dizer, completamente abandonada pelas divindades que tanto venerava e a quem tinha vindo pedir a intercessão milagrosa. Se nem uma reza e nem uma ligação telefônica era possível fazer direito, o milagre de uma cura então, muito menos. Uma coisa de cortar o coração.

Fico pensando como deve ser a dor desses devotos e devotas quando as coisas saem errado. Em todo caso os padres e mesmo os devotos sempre tem uma explicação. Esse deus está sempre certo e mesmo que o que ele venha a fazer seja um horror, que seja mesmo a coisa mais dolorosa e a que o devoto considere a pior que poderia lhe acontecer, bem ao contrário de suas mais emocionadas orações, para isso os padres já tem a sentença dada: esse deus está certo e pronto. Ele sabe o que faz. Por pior que faça, é o melhor para quem foi na verdade uma vítima do seu ato e que é julgado, por mais horrível que seja, misericordioso. Na verdade dizem os padres, quem assim foi atingido, foi na verdade, agraciado. E recitam palavras da salvação e passam para a próxima ligação, como se nada tivesse acontecido.
Fiquei imaginando a dor da pobre mulher, que quase chorando conseguiu ainda contar da sua aflição e esperava ser segura e salva por essa divindade. E tudo o que pude ouvir alí, me levou a imaginar uma figura triste, que estendeu sua mão para a salvação, deu um passo esperançoso e caiu num abismo.

Resta a ela, em sua situação, refazer o pequeno castelo de cartas da fé. Até que um novo sopro de dor venha derrubar tudo o que foi tão zelosamente reerguido. É mesmo de cortar o coração. Até de quem não acredita nessas coisas.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

R28 O mundo era tão perfeito

Como o mundo era bom naqueles tempos... O filme se chama "Adivinhe quem vem para jantar". Tendo reencontrado um dos grandes sucessos do cinema da década de 60, que assisti no século passado (bem, metade do planeta pode dizer isso) tratei de levá-lo para casa para rever um dos melhores filmes já feitos, que mistura um ótimo elenco, romance, comédia e reexame de relações raciais, que em 1967, ano em que foi feito, foi um filme justamente premiado pela mensagem de respeito e tolerância que levou para o público americano e para o mundo.

Mas esquecido da cena inicial, que havia visto aos 12 anos num pequeno cinema do interior paulista, é que me dei conta de como o mundo era perfeito. O filme começa com a aproximação de um avião a jato. Enquanto ele se aproxima soltando uma quantidade de fuligem proibida nos dias de hoje, a câmera passa para um plano alto e aí a trilha sonora, lindamente cantada, começa. Aí, de forma inevitável e cativante comecei a relembrar das coisas que vivíamos então, num mundo perfeito. O avião, um Boeing 707, com imensas 4 turbinas, grandes consumidoras de querosene e que na época despejavam toda a poluição possível, fora o rugido também proibido nos dias de hoje, é de uma época em que os combustíveis eram baratos, a poluição de hoje era só um assunto desconhecido, aquecimento global era uma coisa nem sonhada e por um instante todos nós nos sentíamos americanos dentro daquele avião, com todo o luxo possível, não brasileiros comendo pipoca dentro de um cinema.

A trilha sonora no estilo de Ray Conniff, claro era apreciada, se bem que essa trilha é um caso à parte, é linda mesmo de se ouvir abraçado com a mulher amada. Na época, ser elegante e fino e aparentar um certo conhecimento do estilo de vida nas grandes cidades era ter o último disco de Ray Conniff. Quem tinha aparelho de som, coisa rara na época, corria para a discoteca (naquele tempo, discoteca era para vender discos mesmo) A MPB era chata demais por isso só uns 3 ou 4 na cidade ouviam. No caso tínhamos a vitrola monofônica de 78, 45 e 33 rotações por minuto. Bom mesmo era o som estereofônico dos aparelhos High-Fidelity ou os chamados Hi-Fi, que aprendíamos a pronunciar para não dar furo na frente das meninas : rái-fái. De novo, tudo vinha da genialidade dos americanos. E lá íamos nós nos bailinhos de jovens inocentes de tudo, dançando de mãos dadas e corpos separados, sob o olhar vigilante dos pais e mães no que era chamado de "brincadeira dançante". Os carros que víamos no filme, claro, deixavam todos nós nos perguntando que tipo de tesouro a América tinha encontrado afinal? Estávamos acostumados a andar de Volkswagen, o usual da época. Naquele tempo, 4 entre 5 donos de carro tinham um. Ou então o velho Jeep, Rural Willys e coisas assim. Vez por outra, algum parente mais rico de algum conhecido vinha da capital no seu Impala importado, e ficávamos de olho naquela lataria reluzente. Nos filmes da época, quase todos os carros como táxis, viaturas de polícia, carros do vizinho ou do protagonista do filme, eram o lindo e imbatível Ford Galaxie. Por dentro e por fora, nos mostrava o que era ser americano. Luxuoso e bem acabado, uma lataria super reforçada, pára-choques de aço capazes de derrubar um muro e com o consumo em inacreditáveis 3 quilômetros por litro. De gasolina azul, é claro. Mas na época, comprar gasolina era como comprar água mineral hoje.
Terminado o filme, íamos para casa certos de que víviamos no mundo mais perfeito possível. Naquela época, o mundo era dividido somente em bloco capitalista e bloco comunista. Por sorte tínhamos nascido na parte capitalista, ou melhor dizendo, americana. A civilização estava em volta de todos, mesmo que incipiente.

Em casa, antes de dormir, íamos escovar os dentes. E todos nós, com um sabor de vida americana na boca, fazíamos isso usando a pasta dental Kolynos. Ou Colgate. Podia ter coisa mais americana do que essa? Não tínhamos carros de luxo e nem aviões, mas pelo menos a pasta de dentes estava lá. Ou que outra coisa poderia fazer com que nos sentíssemos a um passo de começar a falar inglês no próximo momento, como se de repente nos tornássemos parte da vida que tínhamos visto no filme?

Era um mundo perfeito mesmo.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

R27 A menininha, o sol e o aço

Visões numa tarde...
Há coisa de umas duas semanas atrás meu coração descompassou de tal forma que por alguns dias, acreditei, de forma resignada, que não iria muito longe nesta vida. Depois de ter cuidado da minha mãe em seus últimos meses, o coração foi tão exigido nas dores de tal situação, que não me admirava que viesse eu a terminar a vida em breve, estando daquele jeito. Avisei a mulher que amo que talvez não a visse mais. Já duvidava que teria chance para isso. Ela tratou de espantar esses pensamentos do meu coração.

Nem mesmo me animei a ir ver minha Floresta Branca. É assim que chamo um recanto especial para mim, onde a calma, o verde e o perfume das flores relaxam a mente e o corpo de uma forma deliciosa. Bem, ela não é minha. É de todos que se apaixonam pela sua beleza, pela sua magia, que aos poucos se descobre.

Mas aos poucos, dia após dia, meu coração foi voltando ao ritmo normal e logo estava podendo caminhar rápido e firme, respirar tranquilo e sentindo que o corpo voltava ao normal. Pensei, como todos pensam, quanto tempo mais teria. Afinal, quem não medita sobre isso. Assim, refeito, ontem fui até a floresta, rever sua beleza, sentir seu perfume, imaginar que meditações eu teria dessa vez. Tarde, sol começando a descer e lá fui eu, estrada abaixo. Enquanto caminhava, me sentia ao mesmo tempo disposto, mas me lembrava do tremor e da fraqueza de quando adoecera.

Após alguns instantes olhando a floresta, me lembrei das palavras do escritor Yukio Mishima em seu admirável livro "Sol e Aço" que traz em si a delicadeza de uma flor de lembranças e a força do aço de conclusões que ele deixou sobre a vida. Refletindo sobre quando começou seu treino com aço para fortalecer seu corpo então frágil, Yukio deixou estas palavras : "...A natureza deste aço é estranha. Descobri que enquanto eu aumentava seu peso, pouco a pouco, o efeito era como os braços de uma balança; o volume dos músculos colocados no outro prato da balança cresceu proporcionalmente, como se o aço tivesse a obrigação de manter um estrito equilíbrio entre os dois extremos...".

Me senti feliz com tudo aquilo, meditei sobre a fraqueza do meu corpo e decidi empreender o mesmo caminho. Ao mesmo tempo olhava para o sol poente, para o brilho que ele produzia na folhagem das árvores e me deliciava com tudo aquilo. Via a delicadeza das folhagens amparadas na força dos troncos. Estranhamente não sentia receio de que minha vida viesse a terminar alí mesmo. Sentia antes uma profunda gratidão a essa mesma vida por ter me proporcionado esses sentimentos e mesmo aquele momento único de reflexões que me enchiam a mente e o coração. Lembrei da mulher que amo com os olhos úmidos e pensei em como seria bom poder dizer-lhe tudo aquilo num simples abraço.

Olhei para o sol poente com seu brilho característico e comecei a voltar para casa, com uma emoção que me abrasava e me acalmava ao mesmo tempo. Sol e Aço. As palavras do título do livro me voltavam na mente a todo instante.
Foi então que vi, caminhando feliz, uma menininha, com sua silhueta do outro lado do caminho fazendo contraste com o verde da floresta ao longe e banhada pelo brilho do sol poente. Algumas pessoas também caminhavam aproveitando a tarde, mas prestei especial atenção na figura da menininha. Sua imagem era a presença viva do que podemos chamar de ternura e delicadeza. O sol se refletia entre seus cabelos soltos e ela caminhava brincando com as folhagens do caminho.

Olhei para a floresta novamente, me relembrei de todos os pensamentos que tinham vindo na minha mente. Olhei para o sol poente, já um disco de um amarelo suave no horizonte, olhei para a menininha e sua figura dourada, com os cabelos cintilando com a luz do sol, que ainda se refletia sobre ela. Aquele momento era de uma perfeição tão ímpar, que por um instante parei para admirar tudo. Lembrei-me das palavras do escritor e me veio na mente a cor do aço em fusão nas siderúrgicas, trazendo a lembrança de uma força da natureza, uma força extrema. Uma força que mantém as coisas em seu lugar, apoiadas em sua resistência, uma força que é passada aos poucos para nosso corpo, como tão bem o descrevera e tão bem o vivera em sua vida Yukio Mishima.
Ao mesmo tempo prestava atenção na figura da menininha, que era a expressão da ternura e da delicadeza. Me lembrei das folhagens com sua fragilidade também com o brilho do sol se refletindo em seu meio, enquanto estavam seguras pela força do tronco. A força do sol e do aço, as folhagens e os troncos, a delicadeza da figura e dos cabelos da menininha. Pareceu-me que também alí a vida me mostrava com tudo aquilo, que deve existir um equilíbrio entre força e ternura, entre a decisão e o caminho.

Voltei pensando que afinal viverei isso tudo, não sei por quanto tempo. Que me esforçarei com o aço e o equilíbrio que ele concede a um corpo ainda fragilizado e que precisa se fortalecer, mas sem querer saber seu limite. Melhor assim. O limite será sentido a cada momento. E a cada vez será maior. Ao mesmo tempo passou a existir mais forte a idéia de ternura que a figura da menininha passou. A ternura pelo amor da minha companheira, a ternura por esses momentos, a ternura por essas visões.
Fui voltando vendo o sol desaparecendo no horizonte e cheguei em casa recebendo seus últimos raios. Pouco depois ele se pôs. Alí na noite que começava, me preparei para viver dias assim, com a força do aço e ao mesmo tempo, tendo aprendido que devo saber carregar no coração a ternura por esses momentos.

Só a magia dessa floresta já é uma força e uma ternura ao mesmo tempo.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

R26 Além do horizonte

Dia após dia, por enquanto...
Vi mais firmemente as coisas assim hoje, que vivo dia após dia. E foi mesmo por ter me sentido mal esses dias todos. Se bem que espero viver uma vida longa ainda, me parece por vezes, que pelas coisas que passei nos últimos tempos, é provável que minha saúde não me deixe ir muito longe. Meu coração foi exigido demais. Não é improvável que eu venha a ter problemas com ele. Acho que serão os últimos problemas que terei, se isso acontecer. Ao mesmo tempo meditando sobre tudo isso, me senti cercado de uma tranquilidade que desconhecia, como o passageiro de um trem, que depois de apreciar a paisagem numa viagem e ainda querendo ver mais sabe que deverá descer numa estação próxima.

Para me distrair um pouco e me reanimar do mal estar que sentia no peito, ao passar numa locadora decidi pegar o filme sobre Charles Darwin, história que já conheço, mas quis ver novamente. Pensei que afinal tantas coisas deixamos de ver e de repente jamais veremos mesmo. Se bem que creio que não nos importaremos muito com isso. Ainda com a dor no peito e com palpitações, comecei a ver o fime. Não poderia ter escolhido melhor. Charles Darwin, a épica viagem do navio Beagle, o obstinado capitão Fitzroy, Darwin escrevendo a teoria da evolução, a história foi me emocionando de tal forma que aos poucos meu coração batia com força. Achei ótimo. Talvez fosse o fim, como saber.

Só a cena em que duas crianças nativas são recebidas pela Rainha Vitória depois de um processo civilizatório é de levar às lágrimas. Enquanto eram conduzidas pelos guardas do palácio, relembrei todas as histórias sobre o tema império, desde Roma antiga até as páginas do livro de Marco Aurélio, um dos imperadores de Roma e depois as histórias do império britânico. Para quem gosta dessas coisas, um voo da mente sobre esse caminhar da humanidade me fez sentir que afinal não seria de todo mal se minha vida terminasse alí mesmo, com esses sonhos e lembranças.
Bem, por enquanto devo ter ganho mais algum tempo. Sabe-se lá quanto. Olhei para meus livros, companheiros de longa data e fiquei feliz pelas histórias do mundo que me deram. Fui até a sala, onde meu bom amigo, um cachorro que já se acredita dono de pelo menos metade dela, se levantou e veio pedir um afago. Fui com ele até o quintal.

Olhando as estrelas me detive nesses pensamentos. A tranquilidade da noite, a meditação sobre talvez estar, quem sabe, a pouco tempo de realmente saber se existe alguma coisa além da vida ou então descobrir o esquecimento absoluto. Surpreendi-me pela sensação de calma, quase uma espécie de baixa, como um soldado ao terminar uma missão.
Com a lembrança das estrelas na mente, me veio o desejo de que a mulher que amo estivesse aqui. Gostaria de estar com ela para o amor, de lhe fazer todos os carinhos, de sussurrar em seu ouvido palavras de carinho, de vê-la quase pegando no sono e cobrir seu corpo com a manta como já fiz tantas vezes e aí beijar seu rostinho e embalar seu sono. Seria perfeito.

Fiquei com lágrimas nos olhos imaginando tudo isso, mas a vida tem dessas coisas. Podemos ter planos e um certo caminhar, mas não o controle das coisas. Me lembrando da imagem dela, penso em vê-la, em sentir seu abraço, em lhe dar parte da minha vida, como ela me deu parte de sua vida.
Ao menos meu coração bate o suficiente para lembrar do meu amor, ver esse filme e sentir estas coisas. Já está bom assim. Me parece uma luz além do horizonte.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

L03 Salvos e desaparecidos

Milagre de aspirina...
Dia 19 de agosto de 2010. Já 10 hs. da manhã e estou tomando um café enquanto ouço a rádio Canção Nova com mais um pregador com a prédica do dia. O pregador de nome Daniel relata um milagre. Pela narrativa dele parece milagre. Conta que há algum tempo atrás foi levado por um médico até o leito de uma mulher muito doente. Com AIDS em estado terminal e coberta de feridas a pobre mulher agonizava. Fiquei imaginando a extrema-unção quando ele contou, em êxtase, que Jesus ordenou-lhe que dissesse para a pobre mulher para se levantar e andar, que ela estava curada, porque Jesus agora, naquele momento lhe dava essa graça. E a mulher se levantou e andou. E feita a cura, todos rezaram, se despediram e cada um foi para seu lado

Passados uns três meses o médico o avisou de que a mulher com AIDS agora estava curada, com a mais perfeita saúde, feliz e passeando por aí. A platéia de católicos exulta com o milagre. A pregação continua em tom crescente. O relógio marca 10 e 25 hs.

O pregador Daniel agora recebe ordens diretas de Deus para descer do palco e ir até uma mulher numa cadeira de rodas, que providencialmente estava bem na frente dele. Ordena a ela que se levante e ela, milagre, se levanta. Estava doente de osteoporose mas se levanta. Tudo é fotografado pelo que o pregador conta e a platéia dá pulos de alegria.
Existe no sentimento do ser humano a necessidade de ser amparado e curado, seja como for. Como não poderia deixar de ser, esse sentimento passou para as figuras relatadas como milagrosas na história das religiões. No religião cristã não poderia ser diferente e é, acima de tudo, um sentimento que todo ser humano tem. Não importa se a cura vem de um milagre ou de um bom tratamento médico.

Enquanto ouvia a mudança da programação para outro pregador, fui imaginando como são explorados esses pretensos milagres que fazem a multidão de fiéis atingir um estado de ânimo que alcança a histeria. Aí qualquer discernimento fica toldado. É um fenômeno que se repete em qualquer platéia, sejam fiéis católicos ou evangélicos.
Fica uma coisa interessante por perguntar, mas ninguém pergunta na hora porque estraga a alegria do milagre. O pregador Daniel foi capaz de curar uma mulher com AIDS e essa mulher que deveria estender sua graça a outras pessoas simplesmente desaparece. Deveria ter se tornado a maior pregadora do Jesus que a curou, uma verdadeira missionária da fé com seu exemplo e com sua história, arrebanhando mais fiéis para essa causa. Mas no entanto, na semelhança de uma pessoa que apenas melhorou de uma dor de cabeça tomando uma aspirina, apenas sai caminhando e passeando por aí. O médico que a tudo assistiu deveria reportar tal caso em congressos de medicina, pois estará alí com certeza a possibilidade de salvar milhares de vidas mundo afora. Mas não. O médico apenas fecha sua maleta e retira-se sem maiores comentários. O pregador Daniel apenas relata o milagre. Não sabemos quem foi curado, quem era o médico, nenhuma testemunha existe.

Depois "cura" a idosa com osteoporose, que é claro, também cai na obscuridade e como os outros curados perde-se como uma sombra no meio da multidão. Então nessas ocasiões os pregadores dão vazão à sua veia curadora. Milagres de cura de dor nas mãos ou de cura de insônia tornam a prédica edificante. Impressionantes milagres capazes de deixarem Jesus corado de vergonha. Curar dores nas mãos. Curar insônia. Pobre Jesus, ele só ressuscitou algumas pessoas. A continuarem essas curas, a fábrica de aspirinas vai fechar.

É isso que eu chamo de milagre de aspirina. Um "milagre" que os católicos aprenderam com os pretensos milagreiros evangélicos. Levanta-se uma pessoa que está numa cadeira de rodas, atacada por artrite, osteoporose ou coisa semelhante, tão capaz de caminhar como caminha no consultório do médico para exames. Capaz sim de caminhar por uns 10 minutos, quando depois é obrigada a se sentar, mas nos 10 minutos em que caminha na frente do pregador, padre ou pastor, a platéia explode em gritos e aleluias. E depois ninguém mais presta atenção na pobre velhinha outra vez na cadeira de rodas. Jamais vi pastor ou padre algum fazer caminhar quem tivesse perdido as pernas num acidente. Em todo caso, é interessante ouvir tais programas. Fim de noite. Enquanto escrevo essas linhas fico pensando se o pregador Daniel teria feito algum milagre para socorrer um conhecido padre da rádio Canção Nova. O padre Léo, um dos mais conhecidos pregadores católicos, que também sempre falava de curas, testemunhos e milagres, morreu de câncer. Para ele o milagre não chegou a tempo. Nem o milagreiro.

O que fica doloroso para as consciências é que nunca sabemos quem foi milagrosamente curado de uma doença incurável, quem é o paralítico que hoje está caminhando por aí, quem é o cego que voltou a ver. Os padres e pastores apenas dizem que estão por aí, felizes da vida. A única coisa que podemos saber e ver de verdade e sem dúvidas é onde fica o túmulo de quem esperou um milagre.

domingo, 8 de agosto de 2010

E01 A voz do oráculo

Concessão de filões...
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Nos acontecimentos noticiados nas colunas sociais dos dias de hoje, repete-se de forma não muito surpreendente a notícia de que mais um casal de celebridades decidiu pela separação. A separação de um casal que percebe que sua convivência se tornou impossível é coisa das mais civilizadas e denota a maturidade dos dois frente a um fato da vida. O amor também se esgota, tal qual uma mina de ouro. Tornou-se porém corriqueiro que muitas mulheres em tais casamentos acreditem que a mina de ouro é vitalícia e pior ainda, dispõem de leis absurdas feitas sob medida para facilitar o enriquecimento ilícito.
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Nem todas são assim porém. Algumas mulheres, casando-se novas e passando uma vida inteira devotadas ao trabalho diário de manter um lar e uma família e impedidas de trabalhar ou estudar por isso, merecem sem dúvida, no fim de uma relação, uma pensão por parte de seu ex-marido por esse trabalho a que devotaram sua vida e possibilidades de trabalho, estudo e alguma profissão onde pudessem prover seu próprio sustento. E com esse trabalho ajudaram seu ex-marido a alcançar uma posição segura na vida. Novamente nem todas as mulheres são assim.
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Não tem sido uma visão correta de muitas mulheres, que veem no casamento uma espécie de concessão de um filão de ouro, a ser exlorado eternamente às custas de quem um dia foi seu marido. Algumas ex-esposas de celebridades que nem mesmo conheceram direito as chaves da casa que um dia chamaram de "lar" abocanham na Justiça gordas pensões. Ocorre aí uma deformação jurídica: casamentos que não duram nem meses, rendem às suas ex-proprietárias, digamos assim, pensões vitalícias, tudo em nome de uma visão ultrapassada do modelo familiar, onde o homem é visto como eterno e único provedor das necessidades de uma união extinta, enquanto que os direitos referentes a ela só existem de um lado e para sempre. O que acontece com as celebridades é apenas a face visível e comentada do que acontece nesse modelo de união em todos os níveis sociais.
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Texto originalmente publicado em 21.09.06 em http://vellker.blog.terra.com.br

Diamantes são para sempre...outras coisas também...

O viajante ia fazendo sua peregrinação até que num dia de sol chegou ao templo do oráculo. Apesar de não haver ninguém no templo, rezava a lenda que tudo o que fosse perguntado com sentimento seria respondido.

O viajante sentou-se, deixou sua mente viajar nas brumas do espírito e perguntou:
- Mestre, existe neste mundo alguma coisa que dure mais do que o granito? Um espírito com a aparência de um velho sábio surgiu no altar e com a voz calma e ao mesmo tempo imponente respondeu:
- Sim...É o diamante.

O viajante pensou mais um pouco e perguntou novamente:
- E existe algo que dure mais do que o diamante? E o oráculo novamente respondeu:
- Sim...É o amor entre um homem e uma mulher.

E em sua busca pela sabedoria, mais uma vez o viajante perguntou:
- E diga-me Mestre...Porventura existe algo neste mundo que dure mais do que o amor entre um homem e uma mulher?

O espírito com a voz calma, como a dos grandes iluminados respondeu:
- Sim...Existe...

Admirado, o peregrino perguntou novamente:
- E o que existe neste mundo Mestre, que dure mais do que o amor entre um homem e uma mulher?

E a voz do espírito veio rouca, revelando o segredo:
- É a pensão alimentícia... Links a verificar:
Stephany Brito consegue pensão de 140 mil reais

Sátira do site Kibeloco
Pensão de Stephany Brito é revogada