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quinta-feira, 17 de maio de 2012

R51 O tempo não para

Como na música...
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Saiu hoje a notícia da morte de uma cantora americana. Lamentei a morte e lembrando dela comecei a recordar muita coisa do passado. Uma delas é como vamos aprendendo a ver que, como dizia uma canção, o tempo não para.   
Leva tempo para ver isso e uma das coisas que vemos é como o tempo não poupa ninguém. Homens e mulheres veem o dito cujo passar implacável e levar com ele muita coisa nossa.
Ao longo dos anos começamos a notar no espelho que de forma incômoda começam a cair os cabelos. Nem todo mundo passa por isso, só a maioria do homens. Alguns amigos meus mais precavidos e para poupar tempo talvez, já trataram de perder os cabelos pouquinho depois dos 20 anos. Eu pelo menos ainda uso o pente.
Com o tempo avançando, outras coisas começam a cair. A parte de baixo do queixo, a barriga que teima em sair por baixo da camisa e olhamos as fotos de 30 anos atrás e nem acreditamos que tínhamos aquela barriga retinha. O pior é que outras coisas que deveriam ficar em pé começam a cair também nos momentos mais inesperados.
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Vemos aquela moça linda que era nossa paixão secreta também de 30 anos atrás e que íamos olhar na praça a noite. E hoje olhamos para ela e não acreditamos no que vemos. Como ela conseguiu ficar desse tamanho?
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Ficamos mais virtuosos como dizia um escritor mas não porque ficamos bonzinhos. É que trocamos a leitura dos rótulos das garrafas de cerveja nas noitadas pela leitura das bulas de remédios antes de dormir. 
E depois começamos a ver aqueles fantásticos artistas de cinema de filmes maravilhosos que assistimos e que foram demais em peripécias, começamos a ver cantores maravilhosos que embalaram nossas mais quentes e divertidas noites e onde vemos todos eles? 
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No noticiário que mostra nossos queridos artistas  sendo levados para o cemitério depois do velório onde foram lembrados pelos grandes filmes e pelas grandes músicas. Nós na platéia começamos a sentir que não estamos muito longe de vê-los novamente, só que não vai ser nesse mundo.
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E a vida prossegue com essas constatações. Saímos na rua e crianças muito sensíveis para o drama nos chamam de "tio". Apenas para não dizerem "ô vô, que horas são".
Por falar nisso, aquele cantor que cantava a música que dizia que o tempo não para, não sei se sabem, já morreu também. É, o tempo não para.
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Ô tempo cruel.
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sábado, 7 de abril de 2012

R50 Distância

Enquanto a procura existe...
Há momentos na vida em que você está distante de quem você ama. Mas tem sempre no coração esse sentimento de procura, de lembrança.
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Apesar da distância, enquanto esse sentimento existir, mesmo longe, você vai estar mais perto do que parece. -
Vellker
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quinta-feira, 29 de março de 2012

R49 Visão

Nos sentimentos é assim...
Muitas vezes, quando relembro de algumas passagens da vida, é essa imagem que me vem na mente. Nem tudo foi assim, mas as partes lindas, que me emocionam ao extremo, me levam em espírito para um lugar assim.
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Nesses momentos é um sentimento maravilhoso.
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Vellker
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quarta-feira, 14 de março de 2012

R47 O Oscar também enferruja

Nem consigo acreditar...
O Oscar também enferruja. Pelo menos o que um dia achamos que valia um Oscar em nós
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Com a última cerimônia de entrega do Oscar, decidi dar uma passada nas imagens de filmes memoráveis e que mostravam feitos heróicos dos vários personagens interpretados por ninguém menos do que Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallone. Ora, nas décadas de 80 e 90, eles protagonizaram sempre personagens do bem, fortes, invencíveis e inspiradores de milhões de cinéfilos.
Heróis imbatíveis, invencíveis e que julgávamos eternos. No hospital fazendo exames. Não é possível
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O problema é que logo depois de navegar por algumas imagens dos melhores filmes dos dois, topei com a notícia e a imagem deles internados no mesmo hospital para exames. Coisas da vida. Cheios de tubinhos de soro e medidores disso e daquilo, os nossos heróis de carne e osso que enfrentavam batalhões de inimigos e monstros alienígenas, cheios de machucados mas ainda em pé e atirando bravamente e sempre vencendo no final, mostravam que são realmente de carne e osso. Como o tempo é cruel.
1985. Que sujeito não saia do cinema pensando em treinar como um Rambo? Já 27 anos depois, é outra coisa
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Em 1985 todos em silêncio viam Sylvester Stallone na pele de Rambo entrando destemido num campo de prisioneiros no Vietnã do Norte, onde maldosos soldados inimigos o faziam retornar a uma guerra que vivera há tanto tempo. Pior ainda, russos mais maldosos ainda tornavam tudo mais difícil para o nosso herói, que no final conseguia derrotar todos os inimigos e nos levava para um final feliz.
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Depois de saírem do cinema, boa parte dos espectadores procurava a primeira academia de musculação pensando em se olhar no espelho algum tempo depois, sem dever nada à figura musculosa do herói que alguns minutos antes deixara todos inspirados.
1987. Depois de ver o filme, qualquer um saía do cinema procurando a primeira porta de academia de musculação. 25 anos depois procuramos anti-inflamatórios na farmácia
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Em 1987 quem não ficou se retorcendo na cadeira quando o alienígena caçador de seres humanos, maldosíssimo e perverso caminhou os últimos passos para enfim matar o major Alan, interpretado por Arnold Schwarzenegger, último sobrevivente de todo o pelotão, mas que ainda assim tinha uma última cartada para se salvar?
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Todos os admiradores do herói saíam do cinema procurando novamente a porta da academia de musculação, onde tinham entrado dois anos antes, feito várias perguntas, tinham prometido começar no outro dia e nunca mais tinham voltado, mas dessa vez saíam do cinema com a firme determinação de se matricularem mesmo. Dessa vez era verdade, sério mesmo.
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Seria o fim daquela vida de só erguer copo de refrigerante e balde de pipoca no cinema enquanto os heróis davam o sangue lutando, eram o que os mais afoitos pensavam enquanto caminhavam resolutos até a academia. Pena que a lanchonete ficasse no meio do caminho, com todos aqueles salgadinhos e sanduíches à mostra no balcão. Ora, que mal faria uma paradinha só, a última para comer mais uns quibes, pastéis e beber mais um copão de refrigerante. Era só a despedida de tudo aquilo.

1982. Oito anos antes, Macgyver e suas peripécias nos faziam pensar em entrar para algum serviço secreto
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Relembrando essas coisas, no meio disso tudo, pensando em como realmente o Oscar pega ferrugem, aproveitei para olhar alguma coisa sobre Macgyver, interpretado por Richard Dean Anderson, que se não era um Hércules invencível e ainda por cima era do batalhão de heróis anti-armas e que desarmado era capaz de improvisar as mais inacreditáveis engenhocas e truques usando de cadarço de sapatos para desativar uma mina até produtos de limpeza para imobilizar um assaltante, nos fazia acreditar que sim, seríamos capazes também de fazermos truques geniais como ele. Algum dia, é claro, em alguma emergência. Enquanto isso só o cadeado enroscado nos deixava para fora de casa e tínhamos que tocar a campainha para abrirem a porta. Mas sem dúvida tínhamos essa genialidade do Macgyver dentro de nós, reservada para momentos cinematográficos.
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E depois, em pleno sábado, dia de bailinhos e coisas assim, ainda por cima podíamos ao menos tentar deixar o topete parecido com o dele antes de irmos para a praça dar um passeio e ver as garotas, muitas das quais hoje vemos com o número do manequim vários números acima do que elas usavam na época. E bota número nisso. Pensando nisso tudo, preferi nem olhar as atrizes belas e sensuais daquela época para não ter nenhuma surpresa parecida.
2012. Enfim, o tempo podia ser mais gentil na hora de fazer marcas. Mas Macgyver parece bem feliz
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E não é que aparece a foto do mesmo Macgyver, na mesma situação. Onde foi parar aquele herói genial, de corpo esbelto e mais ágil do que capoeirista? Em todo caso, visitando o Rio de Janeiro, parece feliz e bem resolvido com a vida. Se sumiu o Macgyver que víamos no seriado, pelo menos parece que o sujeito que dá a entrevista dizendo que adorou o Brasil não tem do que reclamar da vida.
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É verdade, mesmo que tenha aumentado vários quilos no peso e vários números no manequim, ao que tudo indica, a vida anda às mil maravilhas para ele. Melhor assim. Um final feliz. Já é grande coisa.
Bem, não adianta fazer isso. O espelho lembra o nome de outro filme, o "O fiel camareiro", de 1983. Só diz ou melhor, só mostra a verdade. O duro é olhar para ela
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Vou até o armário, abro a caixa de fotografias e decido olhar para minha foto de 1983 e me comparar no espelho. Nem consigo acreditar. O Oscar pega ferrugem mesmo ou pelo menos o que achávamos que existia de Oscar dentro da gente. Não acredito que fiquei assim. Bem, nem adianta dar um murro no espelho, uma idéia que me passa pela mente.
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Ele nada mais faz do que apenas refletir o que colocam na sua frente. A gente é que não quis ver esse tempo todo. Que coisa. E depois desses anos todos sem ir na academia de musculação, se eu der o murro e perder para ele, aí é que desanimo de vez.
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Vellker
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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

D29 Sabotagem

Até onde posso ver...ou comer...-
Comecei a cozinhar há um bom tempo atrás. Tentava dar sabor para minha comida com água, vinagre e um pouco de molho em pacote, uma mistura que eu esquentava com a idéia de que não ia dar certo. Além de não dar certo, eu olhava para o arroz e me perguntava porque, afinal de contas, aquilo parecia mais massa de moldar do que arroz?
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Só passando por isso é que você aprende a dar valor a uma comida bem feita. Mais ainda a um molho delicioso. Tão delicioso que não resisto e me sirvo de mais uma porção. Tenho que admitir. Esse molho é uma verdadeira sabotagem contra qualquer dieta.
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E o sabor de tudo é ainda mais gostoso quando é você que cozinha e alegria das alegrias, quando é você que fez a receita do molho que hoje usa para temperar quase tudo.
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Ô delícia de prato bem cheio.

domingo, 20 de novembro de 2011

L06 Acredite se quiser

É assim a chamada fé cristã...ou qualquer outra...
Por esses dias conversando com um colega sobre religião percebi ao longo da conversa que ele deixava à vista algumas dúvidas sobre a crença, sobre fatos religiosos, sobre os personagens da Bíblia, dúvidas que qualquer cristão tem na medida em que o tempo passa, ele cresce e deixa de ser apenas uma criança obediente na missa e aí passa a fazer perguntas, no início a si mesmo, depois a outras pessoas.
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Como é normal, com uma religião já sedimentada na mente e nos costumes, a maioria segue a fé. Esses outros duvidam. No início guardam as dúvidas para si mesmos e em alguns poucos casos passam a considerar inaceitáveis certos trechos bíblicos. É o primeiro passo para deixar de acreditar nesse imenso, caótico e absurdo edfício religioso, tão absurdo que Martinho Lutero dizia que para acreditar, para ser um bom cristão, o seguidor do cristianismo tem que arrancar os olhos da razão, tem que matar em si mesmo qualquer discernimento.
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Eu mesmo deixei de acreditar em Deus há muitos anos atrás em boa parte porque comecei a ler a Bíblia por mim mesmo, depois de uma peregrinação por várias religiões onde fui constatando que tudo era uma racionalização de desejos humanos, uma espécie de amparo teológico contra os medos que afligem qualquer pessoa, com a criação de um Deus e um Messias que nada mais eram do que lendas corporificadas em religiões, criadas em épocas ancestrais da humanidade e recolhidas pelos judeus em suas passagens ora como saqueadores, ora como escravos pela região do Oriente Médio e depois passadas por eles aos cristãos, que se apossaram de seu livro santo dizendo-se o novo povo escolhido. Nos credos cristãos que resultaram disso, sempre foi milenar a leitura dos trechos selecionados pelos padres e pastores sempre ocultando os trechos absurdos de maiores discussões. Qualquer um que tenha frequentado cultos religiosos católicos ou evangélicos sabe disso, que as pregações são a eterna repetição de trechos bíblicos por assim dizer, selecionados pelos pregadores para não levantar dúvidas. Muitas pessoas andam a vida toda com a Bíblia debaixo dos braços sabendo apenas de algumas poucas páginas, eternamente repetidas pelos pregadores. Quando uma pessoa se volta para o ateísmo por finalmente ver o absurdo das religiões, é taxada de má, de dissoluta e triunfo dos triunfos, de condenada à perdição eterna. Triste engano dos fiéis. Como qualquer um deles somos sujeitos a más ações, a boas ações, a uma vida como qualquer outra, mas sem ter medo de perdição eterna, pois para um ateu não existe nem perdição nem salvação. Existe apenas a liberdade de viver a vida como ela é, sem mérito por crer ou demérito por não crer, até o fim que para todos vai chegar. Fora do edifício religioso, a pessoa consegue ver todas essas crenças como uma frágil luz no escuro, dando apenas uma visão distorcida das coisas. E para manterem seus seguidores em obediência, padres e pastores aumentam os medos e crendices dos seus fiéis, aterrorizando seus já trêmulos seguidores com incessantes estórias de perdição eterna, fogo eterno, torturas eternas e coisas assim.
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Para os cristãos católicos fica também o peso de entender como seus piedosos padres tem se envolvido em tantos escândalos sexuais em todos os países do mundo católico, ao mesmo tempo em que pregam castidade e abstinência, escândalos esses que são coisa tão antiga quanto a pregação católica, mas só nos anos recentes mais noticiados. Já os pastores evangélicos, que pregam o exemplo da vida despojada de seus amados profetas, preferem deixar essa vida para seus fiéis e protagonizam escândalos financeiros em suas seitas capazes de deixar qualquer um estarrecido, menos seus fiéis que tanto católicos como evangélicos sempre perdoam seus pregadores.
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No ano passado eu conversava com um primo evangélico que sabe que sou ateu e me disse que 1 bilhão e meio de pessoas que seguem o cristianismo não podem estar erradas. Eu disse que ele deveria considerar a mudança de religião pois outro 1 bilhão e meio de pessoas que seguem o islamismo também não podem estar erradas. Sem contar os outros 3 bilhões de habitantes do mundo que se dividem entre hinduísmo, budismo e crenças diversas. No meio disso tudo uns 20 milhões de judeus se dizem, eles sim, o povo eleito por Deus e seguidores da religião certa. Enfim, cada religião, independente do seu número de seguidores se diz a verdadeira religião e seus seguidores os verdadeiros escolhidos de Deus. O resto vai para o Inferno.
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Assim vez por outra vou deixar aqui algumas passagens bíblicas que são realmente um motivo de embaraço para os pregadores cristãos. Uma coisa como a pregação resoluta de Timóteo falando com autoridade sobre a inferioridade e submissão da mulher como preceito divino é até suave, frente a outros absurdos elevados à condição de palavra divina.
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As incoerências e contradições nas pregações de Jesus Cristo também merecem um citação ocasional. O cristão que por acaso esteja lendo estas linhas logo vai com a família para a igreja? Pois estando com ela deixa de ser digno do seu amado Jesus, como ele mesmo disse, mas isso os padres e pastores sempre deixam de lado.
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Não é fácil mesmo, com todo o peso social e psicológico que as congregações jogam sobre as pessoas ter a coragem de duvidar. Mas é um grande conforto, quando uma vez livres de crendices, medos e superstições, a pessoa consegue encarar um mundo novo, fora dessa procissão no escuro.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

R44 Não fizemos tudo

O tempo é assim mesmo...
Eu e minha mulher amada combinamos muita coisa da última vez. E não fizemos algumas coisas, mas o tempo, acreditem, nesses casos é assim mesmo. Se fazemos alguma coisa que tínhamos combinado, vamos pensar depois que não fizemos outra e assim por diante. Mas estivemos juntos, desfrutamos da companhia um do outro, ela me confiou seu amor, seus beijos, me contou das dores da vida batendo em seu coração e lhe dei amor, carinho, atenção, tudo que o que um casal de amantes pede numa relação.
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E um pequeno presente, um bule de louça com flores bem desenhadas, presentes que a gente dá para ficar de recordação, sempre que for usado. E fizemos nosso passeio de sempre numa estrada que leva até a floresta que conhecemos. Coisas assim, pequenas, detalhes, mas que fazem a felicidade de pessoas que estão juntas e que se amam.
A volta, o aconchego da casa, essas coisas todas, o amor de corpo e alma, tudo isso leva a outros momentos que nos fazem esquecer de outros que havíamos combinado, mas amar é assim mesmo.
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Lá pelo meio do ano passado encontrei numa locadora o filme "O morro dos ventos uivantes" um clássico do romance, uma estória de amor, triste, mas como muitas que vemos por aí. E deixei na estante esse tempo todo e aí dessa vez assistimos o filme.
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Quem não chora vendo um filme assim? Eu choro, claro, apenas as lágrimas escorrem. Ela viu e me abraçou. E por momentos assim, acabamos não fazendo outras coisas que tínhamos pensado
Fica sempre alguma coisa por fazer, mas se tivéssemos feito tudo, alguma outra coisa ia ficar por fazer também. E aí pensamos nisso depois, mas sabemos mesmo que depois vamos fazer tudo o que combinamos. É como caminhar por uma estrada cheia de belezas. Podemos ir até alí ver uma flor, mas deixamos de ver uma árvore do outro lado, podemos ficar na beira de um córrego mais adiante, mas deixamos de ver uma pequena trilha do outro lado.
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Sempre fica alguma coisa por fazer, mas amar é assim mesmo, é sempre querer ter alguma coisa a mais para fazer com quem você ama.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

R42 A receita

Um sabor que procurei muito...
Existiu um tempo, não muito tempo atrás, em que eu não sabia cozinhar. Queria mas não sabia e decidi aprender. Claro, como todo iniciante na cozinha, eu só podia fazer pratos um tanto fora de qualquer receita.
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Me lembro de nas primeiras vezes misturar água, uma cebola picada, um pacotinho de tempêro, um pouco de vinagre e aí deixava esquentar para ver no que dava.
Depois colocava essa mistura em cima do arroz que tinha aprendido a fazer, mastigava a primeira colherada e sentia que ela seria a última daquele prato. Olhava para o caldo que tinha preparado e pensava :
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- Mas porquê o meu não dá certo...?
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É só imaginar que se eu fosse o cozinheiro de algum quartel, na primeira refeição que eu servisse haveria uma rebelião armada.
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Hoje cozinho aceitavelmente, para não dizer bem. Aliás posso deixar a modéstia um pouco de lado. Ainda não aprendi tudo, mas a receita de molho que fui aprendendo a fazer me levou a duas conclusões. A primeira que cozinho bem, a segunda que pude entender porque certas receitas são guardadas a sete chaves.
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E me lembrei de momentos na vida em que amarguei pratos pesados e de péssimo tempêro na cozinha da vida, pratos que me foram servidos porque entrei no restaurante errado na hora errada.
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Seja lá como for, acabei saindo do restaurante e na mesma caminhada da vida encontrei um lugar tão bom, com uma cozinheira tão boa e que me serve pratos tão deliciosos, com um tempêro tão cheio de sabor, sentimento e amor que ao mesmo tempo em que me sirvo de todas essas delícias, me lamento por não ter encontrado essa mulher antes.
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Mas esqueço as lamentações e me dou ao prazer de fazer refeições com ela, agraciado de corpo e alma.
E pela janela dos sentimentos ainda tenho uma vista maravilhosa para apreciar. Pelo menos é uma visão assim que temos quando existe muito amor no coração. E muito sabor também ao repartir a vida com uma mulher assim.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

R37 Não parece haver fim para isso

Lágrimas e lembranças...
Ontem passei mais uma vez na velha ferrovia que hoje faz parte de muitas lembranças que tenho. Gostaria que houvesse um fim para isso, mas não vai ter. Olho para os trilhos, essa continuidade terminando numa curva onde não posso mais ver o caminho. Vai ser assim, sem ver o final disso o resto da vida.
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Quando era criança passei nesta mesma ferrovia num dia de verão, com minha mãe me levando para conhecer a cidade onde ela havia nascido. Ainda hoje me lembro dos campos e matas, da alegria de viajar de trem. Depois a chegada na estação, o passeio na cidade, tudo que deixa uma criança feliz. Até mesmo a estradinha por onde passamos ainda existe.
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Ontem, de novo me peguei relembrando dos dias em que cuidei da minha mãe enquanto ela agonizava, abatida pela doença que a levou ao fim. Nem mesmo quero lembrar disso, a lembrança vem como uma onda de ar frio, que não peço e nem desejo, simplesmente vem, tamanho foi o sofrimento que ela passou e me deixou marcado.
Lembro do olhar dela, entre assustado em certos momentos e com lágrimas em outros, poucas vezes sereno, pela dor que a doença lhe causava. Pouca vezes eu via serenidade naquele olhar, mas cuidava dela como podia. É aí que nos sentimos miseravelmente humanos. Humanos incapazes de fazer alguma coisa, incapazes de fazer um milagre, apenas vítimas do que acontece. E muitas vezes eu via o olhar dela como o de uma menina assustada, com lágrimas descendo e só o que eu podia fazer era cuidar dela, com os olhos úmidos também.
Não queria ficar lembrando disso, mas a dor que ela sofreu foi tão grande que veio a ser parte da minha vida e minha dor também. Olho para o sol se pondo e os trilhos brilhando com sua luz. Gostaria que essa dor tivesse um pôr do sol também.
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O vento volta a soprar. Eu me levanto e caminho. Enquanto atravesso a ferrovia, olho para os trilhos, olho bem para a curva onde os trilhos se perdem e em parte me conformo. Não parece haver fim à vista para essa dor.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

R36 O que é lindo e triste...

Na hora da ausência...
O que é lindo e é triste ao mesmo tempo...É isso, ver as lágrimas da mulher que me ama no momento em que as horas junto dela começam a chegar ao fim. Tenho que partir e ela chora.
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É lindo ver esse sentimento brotando em forma de lágrimas. Eu a abraço e beijo seus olhinhos com amor. Ela se conforta.
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É triste ter que partir, mas a vida tem dessas coisas. Logo nos veremos novamente.
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Mas acima de tudo é lindo esse momento em que nos abraçamos, em que tenho quem abraçar, quando tenho alguém que chora por mim e eu, no meu sentimento, disfarço a tristeza e me permito somente isso, beijar seus olhinhos...
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Também fico triste, tembém me perco dentro de mim, mas não deixo que ela veja, deixo somente que sinta o beijo...

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

R34 A menininha

Dois caminhos, uma alma só...
Olho para a velha fábrica antes de começar a caminhar, sinto o sol queimando na pele e vou em frente. Logo sinto as botas quentes no asfalto mais quente ainda. Os carros passam e todo mundo olha. Parece que não mas faz bem. Foi-se o tempo em que olhava a fábrica lá longe, um ponto de referência e pensava em quantas vezes teria que parar para me refazer antes de retomar a caminhada. Só no meio do caminho é que me lembro de tomar água. Estou melhorando. A paisagem é linda e paro algumas vezes para olhar, pensar, relembrar coisas. É, vale a pena. Mas alguns pensamentos machucam.
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Lembro novamente do túnel de luz. Existem muitos depoimentos de pessoas que foram ressuscitadas em hospitais, que estiveram clinicamente mortas com parada cardíaca e todos contaram sobre o túnel de luz. Disseram que no momento em que perderam a visão das coisas e de onde estavam, sentiram um relaxamento e foram envolvidas por uma sensação de paz que nunca tinham tido e todas as dores e medos passaram. E aí começaram a ver o túnel de luz e se sentiram a um passo do Paraíso. Depois acordaram na maca da ambulância ou do pronto-socorro, mas essa experiência deixou essa lembrança que existe em todos os que passaram por isso. De novo, lembro da minha mãe morrendo e penso se ela sentiu essa paz. Fico de olhos úmidos e espero, desejo que sim. Continuo caminhando, o sol quente, o asfalto queimando e procuro me esquecer disso. Procuro dentro da minha alma uma visão como a que essas pessoas viram, que seja mais próxima do Paraíso, mas não consigo. Mas o cansaço já está bom, o corpo melhora, se fortalece a cada caminhada, ao menos isso já me faz bem e o passo puxado me distrai, me faz esquecer essas dores. Dentro de mim procuro imaginar um caminho lindo, uma paisagem suave para poder ter paz, sentir menos dor, mas já me conformei. Vou viver assim, lembrando de tudo o que aconteceu, ainda sentindo essa dor ou talvez morrer por causa disso. Procuro de novo rever na mente esse caminho, tão bonito quanto esse em que estou de verdade agora. Uma só alma, dois caminhos. E uma lembrança que não cessa.
Pior ainda, tenho meditado sobre certas coisas e sinto como se minha alma emergisse de uma neblina, com uma forma que eu não gostaria de ver, mas sei que existe. Inútil tentar dizer que não. Percebo que o ser humano vive com dois caminhos em sua alma, mesmo que não saiba. De um lado podemos ser angelicais e criar mundos de sonhos lindos. Por outro podemos dar vazão a uma brutalidade inacreditável e criar pesadelos que todos vão querer esquecer. Anjo e demônio ao mesmo tempo. Olho para a floresta com flores crescendo perto das árvores e procuro me distrair disso. Mas é impossível.
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Chego num ponto em que agora olho a fábrica de longe, mas dessa vez do outro lado do caminho. Nem parece que fiz todo esse trajeto perdido em pensamentos assim. Mais alguns quilômetros e passo na frente do hospital onde minha mãe morreu, onde a vi pela última vez, onde lhe fiz carinhos, animei-a dizendo que logo voltaria. Regulamentos do hospital. Você tem hora para sair e para voltar. E foi por isso que não pude estar com ela quando ela morreu. A dor volta.
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Quando chego na praça, ainda podendo ver o hospital e de olhos úmidos, vejo uma das coisas mais lindas que poderiam existir no caminho. Uma menininha alegre com seu cachorrinho pequeno. Não pode haver imagem que me traga maior paz e tranquilidade do que essa. Ao passar perto dos dois, o cachorrinho avança para mim querendo brincar. A menininha sorri e diz que ele não morde. Eu sorrio também e sigo em frente. A dor passa.
Volto a pensar na minha mãe, em sua morte solitária e dessa vez a dor vem com um sentimento de esperança, com a lembrança das pessoas que quase morreram contando do túnel de luz. Eu espero que minha mãe não tenha visto esse túnel de luz.
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Olho para a meninina brincando com o cachorrinho mais uma vez e desejo com todas as forças que no momento final, ao perder a consciência deste mundo, minha mãe tenha sentido uma paz, uma tranquilidade vinda do Paraíso, uma coisa que só sentiremos nesse momento.
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Desejo com todas as forças do coração que ela tenha visto uma menininha assim, alegre feliz, brincando com seu cachorrinho e que os dois tenham se aproximado dela, que a menininha tenha segurado sua mão e a tenha levado pelo caminho mais lindo que ela poderia ver.
A dor quase desaparece. Olho para a menininha brincando com o cachorrinho mais uma vez, olho para o sol poente e sei que pelo menos essa imagem do Paraíso vai existir comigo para sempre. Gostaria de ter duas almas, como esses dois caminhos que existem dentro de mim.
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Pelo menos uma delas poderia esquecer disso, descansar dessa dor. Retomo o caminho.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

R33 A ferrovia

Um caminho longo demais...
Ontem, depois de começar a caminhar novamente em percursos longos pude me sentir feliz. Experimentei sol e chuva, mas acima de tudo a certeza de estar no caminho que iniciei há algum tempo, do sol e do aço. Efeitos começam a aparecer sobre o corpo aos poucos exatamente como deixou registrado em seu memorável livro de reflexões, Yukio Mishima. Esse admirável escritor japonês em "Sol e Aço" uma de suas melhores obras fala de coisas do corpo e do espírito.
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E descreve de forma candente como o aço, parecendo obedecer a uma espécie de lei de equilíbrio natural, passa aos poucos para o corpo a força que está contida nele e modela o corpo que dele usa. Descobri mais por esses dias. Não só modela o corpo, como modela também o espírito. Tivesse eu levado as palavras desse pequeno livro para a prática há anos atrás e com certeza muitas coisas da vida não teriam me abatido como me abateram.
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De sorte que há alguns meses, passando em frente da floresta que sempre vejo, iniciei passo a passo o caminho para vivenciar tudo isso. Nem bem posso dizer que tenha vivência nesse caminho e já senti que a emoção que por vezes toma conta de mim com um corpo que se refaz a cada dia é algo a desejar e ao mesmo tempo a temer, ou acautelar-se com as coisas que ela nos leva a fazer e quando vemos, está feito. Se o começo é assim, tímido e ao mesmo tempo turbulento, penso no que será no momento em que o corpo atingir a plena vitalidade de trabalho e luta por causa disso. O próprio Mishima pagou com a vida por isso.
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Paro a caminhada que iniciei horas antes. Me lembro de na saída ter visto bem longe a quilômetros de distância a fábrica que fica no caminho, a alegria de recomeçar as caminhadas, saber que antes de me assustar, a distância me convida. E vou em frente. Por dentro uma sensação quase de êxtase.
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Em certo trecho da caminhada, percebo que pouco ligo para o tempo, mal sinto o cansaço. A cada caminhada, me sinto melhor. Continuo e alterno sol e chuva pelo caminho. Olho agora a fábrica, quilômetros atrás. Paro aqui perto da ferrovia que conheço há anos, vejo seus trilhos desaparecendo no horizonte e o sol brilhando sobre o aço dos trilhos e me parece que faço um caminho assim. Só não sei onde vai terminar, mas é contagiante.
E pensar que um pequeno livro, de memórias e reflexões desperta tantos sentimentos. Guardei-o por anos, por vezes relendo algumas das impressões deixadas pelo escritor.
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Se esse tão pouco já dá essa sensação, espero que possa viver muito mais disso ainda. Os trilhos, sol e aço, brilhando e se perdendo no horizonte, agora, ao invés de trazerem a sensação de dúvida pelo fim do caminho, trazem a esperança de que o caminho seja interminável.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

R32 O ressuscitado

De volta à vida...
Vendo agora o Príncipe Valente deitado na sala, com o corpo bem largado como se fosse um herói imbatível e invulnerável, me ponho a recordar da noite passada. Para melhor entendimento Príncipe Valente é o nome que por vezes dou ao meu cachorro, que já pela convivência nem posso chamar de meu ou dizer que sou dono, digo que é um grande amigo.
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Pois sempre apoquentado quando saio e querendo sair junto nem sempre posso deixar que ele caminhe junto comigo. Tem o péssimo hábito de correr atrás de algum outro canino que julga desafeto e nisso atravessa a pista onde os carros passam num velocidade considerável. Mas mesmo assim o Valente considera que a pista é dele e portanto ele tem a preferência. Já escapou de ser atropelado algumas vezes, até que deixando de confiar na sorte decidi confiar na coleira com a qual o seguro antes que invada a frente de algum carro.
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Pois nessa noite vendo seu olhar brilhante onde se lia nitidamente a pergunta "...Quando vamos sair...?" decidi levá-lo comigo. Só de pegar a coleira ele deu pulos de bater qualquer marca olímpica e deu latidos capazes de fazer qualquer cantor de ópera sentir-se com um rival a altura. Já com o Valente encoleirado, fui saindo com ele e oras, estava se armando um tempo de chuva, mas uma pequena volta não seria um grande risco de voltarmos encharcados.
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Fomos caminhando para o portão e aí presenciei a morte e ressurreição do meu amigo. Pouco antes de pegar a chave, com a luz que nos atingiu me pareceu que um flash fotográfico gigante havia sido disparado sobre nós dois. No décimo de segundo seguinte tive a impressão de que o canhão de um tanque de guerra havia sido disparado na nossa frente.
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Era um raio e dos grandes e mostrando um clarão nada amigável. Ao mesmo tempo em que me abaixei quase caindo para trás, assim que o susto passou e enquanto o estrondo ecoava pela cidade toda, pude ver meu amigo iluminado pela fraca luz do poste da rua, imóvel, de rabo empinado e orelhas levantadas. Chamei-o pelo nome e dessa vez ele não atendeu. Pensei se não teria sido fulminado por algum choque e toquei na sua cabeça, eu mesmo ainda trêmulo. Ele virou a cabeça para mim e em seus olhos havia uma tal expressão de perplexidade que creio que pude entender o que ele pensava. Em seu pensamento canino, com toda certeza já se dava por fulminado e morto pelo raio e olhava o mundo além-vida, para onde acreditava ter sido levado, talvez notando a semelhança do portão do céu canino com o portão da casa onde vivera.
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Ora, sentindo o toque na cabeça devia continuar vivo deve ter pensado, então ainda estava nesse mundo. Nem tive tempo de segurá-lo e correu sala a dentro e enfiou-se embaixo do seu abrigo anti-raios, a mesa da sala. Com a chuva começando a cair em gotas pesadas, voltei. Fechei a porta e o olhei, bem encolhido embaixo da mesa. Melhor assim, meu amigo estava vivíssimo.
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Nem mesmo o prato de ração o tirou debaixo da mesa enquanto continuavam os trovões e raios. Mas claro, depois que os céus ficaram calmos, ainda que de forma cautelosa ele saiu para espiar os arredores com ares de grande valentia.
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Continuava enfim, vivo e portentoso o Príncipe não tão Valente assim, mas não posso falar muito. Eu mesmo quando afaguei sua cabeça depois do estrondo tinha as mãos trêmulas. Para manter minha pose junto à do Príncipe, atribuí os tremores aos exercícios feitos antes da nossa saída. E terminamos nós dois com a nossa coragem intacta naquela noite de chuva.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

R31 A partida

Eu sabia que viria este dia...
Está próximo o dia em que as árvores da floresta que tem sido meu templo particular por esses anos serão cortadas. Mas não tenho porque me lamentar. Faz parte de um ciclo. Fosse eu o dono dessas terras e não seriam cortados esses eucaliptos que tantos sonhos abrigaram. Mais que isso momentos de reflexão, coisas da vida.
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Há alguns anos atrás voltava eu da cidade grande imerso numa situação de vida nada fácil. Cheguei de noite e não tinha visto ainda. De dia, mais um motivo para desanimar. A floresta que me trazia tanto alento se fora. Para onde olhasse eu via apenas árvores cortadas. Eu nem conseguia acreditar. Fotografei a floresta ou o que havia restado dela em preto e branco e guardo as fotos até hoje.
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Mas acompanhei seu crescimento, pude ver os pequenos brotos crescendo, desfrutei de sua nova sombra em dias ensolarados e voltei a sentir seu perfume em noites de verão e enquanto ela crescia passei na sua frente levando meu irmão e minha mãe para a última viagem de suas vidas. Ela abrigou minhas lágrimas e por esses tempos de renascer, sonhos lindos e momentos que não quero esquecer.
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Mas como disse, faz parte de um ciclo. Depois de alguns anos a árvores são cortadas, enquanto que os trabalhadores ao mesmo tempo em que cortam, já preparam o plantio de novas mudas. Sei então que vão renascer. Me pergunto se estarei aqui para ver.
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São coisas da vida. Espero que eu esteja aqui para ver mais momentos como esses. Só vou viver uma vez mas sei que a Floresta Branca vai viver para sempre, esteja eu onde estiver.