domingo, 27 de março de 2011

R35 Uma bebida amarga

Absinto, reatores nucleares, o mar e um livro...
-
O que se vê abaixo é o jazigo nuclear de Chernobil. Onde antes existia uma usina nuclear na antiga União Soviética, existe hoje esse gigantesco cubo de concreto onde foram colocadas imensas placas de aço e chumbo para isolar o centro do reator que entrou em fusão em 1986, após um mal sucedido experimento de aproveitamento de emissão de energia nuclear residual com o desligamento dos sistemas de proteção. Os técnicos que operavam o reator e tentaram religar os sistemas morreram. Bombeiros, outros técnicos e soldados que trabalharam nos primeiros dias jogando água, cimento, areia e limalha de chumbo sobre o reator morreram semanas depois. Dos milhares de trabalhadores que ergueram essa contenção, centenas morreram ou adoeceram gravemente por causa da radiação que absorveram. O núcleo fundido, agora com boa parte da energia da radiação já gasta após 25 anos de emissão contínua vai deixar uma massa radioativa de diversos elementos criados na reação que vão levar 24.000 anos para se tornaram inertes. É isso mesmo, 24.000 anos é o período de emissão de certos elementos até o esgotamento total de sua energia nuclear.
Perto da usina existe um cemitério de material. Carros, tanques, caminhões, material de construção, guindastes e helicópteros que foram usados nas primeiras semanas de trabalho de contenção da radiação e que se tornaram radioativos pelos detritos que os envolveram hoje são analisado por técnicos russos com duas finalidades: uma a de medir os níveis de radiação que ainda emitem e descrever tudo em manuais técnicos sobre segurança nuclear, outra a de verificar o dia em que finalmente poderão ser desmontados. Todo este material está lá há 25 anos, cuidadosamente cercado por guardas armados. Num raio de 40 quilômetros em torno da usina, não há mais habitantes. A monitoração de fontes de água e dos rios é feita constantemente. Não há como saber se o núcleo radioativo fundido continua no mesmo lugar ou se está aos poucos se infiltrando pelo solo.
Próximo do continente russo onde tudo isto aconteceu em 1986, nos dias de hoje outro trágico acontecimento semelhante se repete após o tsunami que arrasou a parte nordeste do Japão e atingiu em cheio os reatores nucleares de Fukushima e aí aconteceu outro acidente nuclear de forma talvez pior, pois a situação continua ainda crítica e com vazamento de radiação contínua. Pior ainda que Chernobil, os reatores ainda não puderam ser isolados e devidamente enterrados com concreto, aço e chumbo, sendo que os reatores a pouca distância do mar e numa região sujeita a terremotos devastadores, deixam bem poucas esperanças de um futuro sem medos. As consequências estamos vendo hoje, torcendo pelos trabalhadores japoneses, sendo que alguns logo acabarão morrendo, mas continuam bravamente lutando para ao menos melhorar a situação.
-
O que bilhões de telespectadores viram pelas imagens da televisão foi a enorme explosão de um dos reatores, com as chamas aparecendo num clarão e a nuvem da explosão subindo a mais de 500 metros de altura. Detritos radioativos foram jogados no mar pela explosão. Enquanto o governo japonês e a empresa que opera os reatores tentavam acalmar a população dizendo que estavam próximos de controlarem a radiação, funcionários de empresas estrangeiras e de embaixadas foram todos retirados do Japão.
-
É explicável. Dispondo de sistemas de rastreamento nuclear privilegiados que incluem os satélites de observação americanos, franceses, russos, chineses e até do serviço secreto de Israel, o que os operadores desses sistemas viram foi um enorme clarão radioativo na área dos reatores, com vazamento de vapor radioativo subindo a quilômetros de altura na atmosfera o que indicava que a situação estava completamente fora de controle ao contrário do que diziam o governo e a empresa japonesa e passaram essa informação a seus governos que aí avisaram as empresas.
Numa semelhança dolorosa com o que a nação japonesa passou com os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki, agora com a destruição provocada pelo terremoto e pelo tsunami, o cenário de destruição lembrava perfeitamente a destruição causada pelos bombardeios americanos durante a 2a. Guerra Mundial. As equipes de socorro salvaram os feridos que puderam, enquanto que a temperatura de inverno abaixo de zero terminava com as chances de muitos sobreviventes ainda presos nos escombros.
-
A marinha americana, mobilizada para exercícios no Mar do Japão nos dias do tsunami, com seus navios e helicópteros já entregou milhares de toneladas de suprimentos, alimentos, remédios e roupas para as equipes de socorro e sobreviventes em missões onde os soldados americanos até mesmo choraram ao verem a situação de destruição que encontraram.
Olhamos nas telas de nossos computadores ou na banca da esquina as notícias sobre o desenrolar da situação. Vendo as notícias de contaminação nuclear que aconteceram nos dias seguintes, podemos entender porque os estrangeiros foram retirados do Japão logo nos primeiros dias. Até mesmo em Tóquio distante 270 quilômetros dos reatores, a medição da água encanada acusou a presença de radiação. Logo toda a água mineral nas grandes e pequenas cidades estava esgotada e hoje vem de outros países, enquanto que a leitura diária da radiação é feita.
Nisso tudo, com o coração dolorido ao vermos o que acontece, o que permanece como um ponto de reflexão são as notícias que vemos em comparação com um texto do Apocalipse na Bíblia. Mas outra coincidência também nos deixa a refletir sobre certas semelhanças de nomes. Chernobil em russo significa Absinto.
-
E no chamado Livro Sagrado podemos ler:
-
"Apocalipse 8:10-11 "O terceiro anjo tocou a trombeta, e caiu do céu sobre a terça parte dos rios, e sobre as fontes das águas uma grande estrela, ardendo como tocha. O nome da estrela é Absinto; e a terça parte das águas se tornou em absinto, e muitos dos homens morreram por causa dessas águas, porque se tornaram amargosas."

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

C02 Valente

Filme recomendado...
-
Muitas vezes nos vemos senão obrigados, pelo menos próximos da linha limite entre aguardar uma justiça que nunca chega ou então partir para o revide puro e simples contra um agressor que nos fez um grande mal e nisso acabar terminando com a vida dele. Em certos casos é correto. É o que é mostrado por Jodie Foster no papel da pacata radialista Erica Bain no filme "Valente" (Brave One, 2007).
-
Interpretando uma cidadã comum que sofre uma grande violência, esse filme nos traz uma nova contemplação desse tema. Ela não só parte para o revide dessa violência por ela sofrida como também decide acertar as contas com muitos dos bandidos hoje tão comuns nas grandes cidades e que se aproveitam em grande parte de uma sociedade com leis lenientes no combate ao crime.
De forma surpreendente apesar de suas investigações quase sempre cruzarem com a radialista, o detetive Sam Mercer interpretado por Terrence Howard, deixa entrever em uma de suas entrevistas para ela que o que mais lhe doia em certos casos que tinha que investigar era justamente o fato de os criminosos quase sempre contarem exatamente com a lei para conseguirem caminhar entre o crime e a vida comum.
"Valente" é a refilmagem muito bem feita e com novas cores de um clássico de 1974 com Charles Bronson no papel de Paul Kersey, também um pacato cidadão nova-iorquino que perde a mulher violentada e morta em um assalto. Ainda vivenciando as dores do acontecido, ganha um revólver de presente de um amigo e ao reagir a um assalto descobre a letalidade que pode existir numa pessoa assim e acerta as contas com muitos bandidos.
Em comum com o filme atual existe a admiração dos cidadãos que veem que um vigilante está agindo na sua cidade e também no caso do primeiro filme, o sentimento de compreensão mostrado pelo policial que investiga o que acontece, no fundo senão admirando, ao menos entendendo os atos do justiceiro.
Um filme que é uma grata surpresa pelo tema que explora e que deve ser assistido por todos que se interessam pelo que vivemos hoje em dia, numa sociedade de metrópoles caóticas e onde a justiça ou polícia pouca ou quase nenhuma proteção oferecem aos cidadãos.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

D15 Calor de 35 graus

É o que diz o termômetro...
-
Olho para a janela e o sol, sim esse mesmo que está fazendo mamonas estalarem parece bem convidativo. No horizonte nuvens de chuva. Tudo indica que além de sol também pegarei uma bela chuva na caminhada. Vamos que vamos. O meu amigo cachorro fica desanimado ao ver que não vai sair. Se ele soubesse o bem que lhe faço daria pulos de alegria, mas ele se reconforta com um afago creio que meio lembrado da última vez em que o levei sob esse sol atendendo a seu olhar tristonho e no meio do caminho o dito cujo quase desmaiou.
Ajeito a garrafa de água dentro da mochila e olho no termômetro, sim, 35 graus mesmo. Arrumo o tocador de MP3 no bolso, ponho a mochila e o chapéu e saio. Como eu pensava. Ninguém na rua. Também com esse calor não é de admirar. Olho para a fábrica bem longe e sinto uma sensação de euforia. Muito à frente da fábrica vejo a descida em que estarei caminhando dentro de duas horas. Sem problemas, ligo o som e vou ouvindo enquanto subo a rua. É gratificante me sentir assim mesmo vendo toda a distância que terei que percorrer. Significa que estou melhorando. Ao alcançar a saída para a rodovia, os primeiros carros passam com passageiros e motoristas olhando. Cruzes, o sujeito está caminhando com esse sol? Sim, estou, ora essa, nunca viu? Na praia ninguém reclama do sol. Que coisa.
No meio do caminho, ainda próximo das casas vou me aproximando de uma mulher bem gorda. Que coisa elogiável, tudo indica que ela duramente se esforça para reduzir seu peso. Penso que é um verdadeiro exemplo nos dias de hoje. Caminhando assim, creio que dentro de um ano terá conseguido progressos notáveis. Ao passar por ela vejo que está comendo um belo pedaço de pudim e não é roupa de caminhada. Então deve estar indo bem tranquila para casa voltando talvez da padaria onde comprou um belo e delicioso pudim de leite. Ainda há pelo menos esperanças de que ela venha a entrar para o livro de recordes. De peso, é claro.
-
Chego no trevo e admiro minha floresta. Quando faço a curva vejo o ar quente se levantando do asfalto, deixando a pista ao longe parecendo molhada. De novo passam todos de olhos postos em mim. Tenho até medo que algum motorista perca a direção de tanto me olhar. Mas nunca viram um sujeito caminhando? Sim, está um sol de rachar que sinto nas botas, mas e daí?
Aqui na subida pelo menos uns 40 graus, sem dúvida. Levei uma hora até esse trecho em que levava meia hora a mais para fazer, só agora vou beber água, bem onde antes me perguntava se as garrafas iam durar até o fim da caminhada. É devo estar melhorando mesmo.
-
Pego a subida até a fábrica com tudo. Dez minutos estrada acima, com o tempo diminuindo, a disposição aumentando. Caminhões descem a estrada com uma velocidade de dar medo e o vento que fazem me obriga a segurar o chapéu. Os carros passam com todos de olhos grudados em mim ou todos hoje deram de olhar para o lado direito do passageiro e do motorista sabe-se lá porque. Sim, está um sol que deixa o asfalto mole, mas que coisa, no trio elétrico ninguém reclama.
-
Chego na frente da fábrica e olho para o ponto de onde saí há uma hora atrás. Me sinto bem e posso beber mais água e continuo caminhando no ponto onde antes meus pés latejavam e minhas costas doíam tanto que eu tinha que descansar um pouco e a idéia de pegar o ônibus virava uma tentação. Sim, estou melhorando mesmo. Delícia. Com a música dos Rolling Stones também qualquer um caminha assim.
Maravilha, chego no ponto em que olhei há coisa de uma hora e meia atrás lá do outro lado do caminho e vejo que o tempo se mantém. A chuva mudou de rumo. Nada mau, assim a roupa no varal fica seca.
-
Continuo ouvindo a música e vou descendo. É, agora a temperatura baixou mas no asfalto é certo que peguei uns 37 ou 40 graus. Ao que tudo indica, se o relógio não estiver sofrendo de insolação, estou melhorando o tempo. Preciso começar a me lembrar de trazer o termômetro.
-
O sol se vai e eu também, mas foi divertido.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

R34 A menininha

Dois caminhos, uma alma só...
Olho para a velha fábrica antes de começar a caminhar, sinto o sol queimando na pele e vou em frente. Logo sinto as botas quentes no asfalto mais quente ainda. Os carros passam e todo mundo olha. Parece que não mas faz bem. Foi-se o tempo em que olhava a fábrica lá longe, um ponto de referência e pensava em quantas vezes teria que parar para me refazer antes de retomar a caminhada. Só no meio do caminho é que me lembro de tomar água. Estou melhorando. A paisagem é linda e paro algumas vezes para olhar, pensar, relembrar coisas. É, vale a pena. Mas alguns pensamentos machucam.
-
Lembro novamente do túnel de luz. Existem muitos depoimentos de pessoas que foram ressuscitadas em hospitais, que estiveram clinicamente mortas com parada cardíaca e todos contaram sobre o túnel de luz. Disseram que no momento em que perderam a visão das coisas e de onde estavam, sentiram um relaxamento e foram envolvidas por uma sensação de paz que nunca tinham tido e todas as dores e medos passaram. E aí começaram a ver o túnel de luz e se sentiram a um passo do Paraíso. Depois acordaram na maca da ambulância ou do pronto-socorro, mas essa experiência deixou essa lembrança que existe em todos os que passaram por isso. De novo, lembro da minha mãe morrendo e penso se ela sentiu essa paz. Fico de olhos úmidos e espero, desejo que sim. Continuo caminhando, o sol quente, o asfalto queimando e procuro me esquecer disso. Procuro dentro da minha alma uma visão como a que essas pessoas viram, que seja mais próxima do Paraíso, mas não consigo. Mas o cansaço já está bom, o corpo melhora, se fortalece a cada caminhada, ao menos isso já me faz bem e o passo puxado me distrai, me faz esquecer essas dores. Dentro de mim procuro imaginar um caminho lindo, uma paisagem suave para poder ter paz, sentir menos dor, mas já me conformei. Vou viver assim, lembrando de tudo o que aconteceu, ainda sentindo essa dor ou talvez morrer por causa disso. Procuro de novo rever na mente esse caminho, tão bonito quanto esse em que estou de verdade agora. Uma só alma, dois caminhos. E uma lembrança que não cessa.
Pior ainda, tenho meditado sobre certas coisas e sinto como se minha alma emergisse de uma neblina, com uma forma que eu não gostaria de ver, mas sei que existe. Inútil tentar dizer que não. Percebo que o ser humano vive com dois caminhos em sua alma, mesmo que não saiba. De um lado podemos ser angelicais e criar mundos de sonhos lindos. Por outro podemos dar vazão a uma brutalidade inacreditável e criar pesadelos que todos vão querer esquecer. Anjo e demônio ao mesmo tempo. Olho para a floresta com flores crescendo perto das árvores e procuro me distrair disso. Mas é impossível.
-
Chego num ponto em que agora olho a fábrica de longe, mas dessa vez do outro lado do caminho. Nem parece que fiz todo esse trajeto perdido em pensamentos assim. Mais alguns quilômetros e passo na frente do hospital onde minha mãe morreu, onde a vi pela última vez, onde lhe fiz carinhos, animei-a dizendo que logo voltaria. Regulamentos do hospital. Você tem hora para sair e para voltar. E foi por isso que não pude estar com ela quando ela morreu. A dor volta.
-
Quando chego na praça, ainda podendo ver o hospital e de olhos úmidos, vejo uma das coisas mais lindas que poderiam existir no caminho. Uma menininha alegre com seu cachorrinho pequeno. Não pode haver imagem que me traga maior paz e tranquilidade do que essa. Ao passar perto dos dois, o cachorrinho avança para mim querendo brincar. A menininha sorri e diz que ele não morde. Eu sorrio também e sigo em frente. A dor passa.
Volto a pensar na minha mãe, em sua morte solitária e dessa vez a dor vem com um sentimento de esperança, com a lembrança das pessoas que quase morreram contando do túnel de luz. Eu espero que minha mãe não tenha visto esse túnel de luz.
-
Olho para a meninina brincando com o cachorrinho mais uma vez e desejo com todas as forças que no momento final, ao perder a consciência deste mundo, minha mãe tenha sentido uma paz, uma tranquilidade vinda do Paraíso, uma coisa que só sentiremos nesse momento.
-
Desejo com todas as forças do coração que ela tenha visto uma menininha assim, alegre feliz, brincando com seu cachorrinho e que os dois tenham se aproximado dela, que a menininha tenha segurado sua mão e a tenha levado pelo caminho mais lindo que ela poderia ver.
A dor quase desaparece. Olho para a menininha brincando com o cachorrinho mais uma vez, olho para o sol poente e sei que pelo menos essa imagem do Paraíso vai existir comigo para sempre. Gostaria de ter duas almas, como esses dois caminhos que existem dentro de mim.
-
Pelo menos uma delas poderia esquecer disso, descansar dessa dor. Retomo o caminho.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

R33 A ferrovia

Um caminho longo demais...
Ontem, depois de começar a caminhar novamente em percursos longos pude me sentir feliz. Experimentei sol e chuva, mas acima de tudo a certeza de estar no caminho que iniciei há algum tempo, do sol e do aço. Efeitos começam a aparecer sobre o corpo aos poucos exatamente como deixou registrado em seu memorável livro de reflexões, Yukio Mishima. Esse admirável escritor japonês em "Sol e Aço" uma de suas melhores obras fala de coisas do corpo e do espírito.
-
E descreve de forma candente como o aço, parecendo obedecer a uma espécie de lei de equilíbrio natural, passa aos poucos para o corpo a força que está contida nele e modela o corpo que dele usa. Descobri mais por esses dias. Não só modela o corpo, como modela também o espírito. Tivesse eu levado as palavras desse pequeno livro para a prática há anos atrás e com certeza muitas coisas da vida não teriam me abatido como me abateram.
-
De sorte que há alguns meses, passando em frente da floresta que sempre vejo, iniciei passo a passo o caminho para vivenciar tudo isso. Nem bem posso dizer que tenha vivência nesse caminho e já senti que a emoção que por vezes toma conta de mim com um corpo que se refaz a cada dia é algo a desejar e ao mesmo tempo a temer, ou acautelar-se com as coisas que ela nos leva a fazer e quando vemos, está feito. Se o começo é assim, tímido e ao mesmo tempo turbulento, penso no que será no momento em que o corpo atingir a plena vitalidade de trabalho e luta por causa disso. O próprio Mishima pagou com a vida por isso.
-
Paro a caminhada que iniciei horas antes. Me lembro de na saída ter visto bem longe a quilômetros de distância a fábrica que fica no caminho, a alegria de recomeçar as caminhadas, saber que antes de me assustar, a distância me convida. E vou em frente. Por dentro uma sensação quase de êxtase.
-
Em certo trecho da caminhada, percebo que pouco ligo para o tempo, mal sinto o cansaço. A cada caminhada, me sinto melhor. Continuo e alterno sol e chuva pelo caminho. Olho agora a fábrica, quilômetros atrás. Paro aqui perto da ferrovia que conheço há anos, vejo seus trilhos desaparecendo no horizonte e o sol brilhando sobre o aço dos trilhos e me parece que faço um caminho assim. Só não sei onde vai terminar, mas é contagiante.
E pensar que um pequeno livro, de memórias e reflexões desperta tantos sentimentos. Guardei-o por anos, por vezes relendo algumas das impressões deixadas pelo escritor.
-
Se esse tão pouco já dá essa sensação, espero que possa viver muito mais disso ainda. Os trilhos, sol e aço, brilhando e se perdendo no horizonte, agora, ao invés de trazerem a sensação de dúvida pelo fim do caminho, trazem a esperança de que o caminho seja interminável.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

R32 O ressuscitado

De volta à vida...
Vendo agora o Príncipe Valente deitado na sala, com o corpo bem largado como se fosse um herói imbatível e invulnerável, me ponho a recordar da noite passada. Para melhor entendimento Príncipe Valente é o nome que por vezes dou ao meu cachorro, que já pela convivência nem posso chamar de meu ou dizer que sou dono, digo que é um grande amigo.
-
Pois sempre apoquentado quando saio e querendo sair junto nem sempre posso deixar que ele caminhe junto comigo. Tem o péssimo hábito de correr atrás de algum outro canino que julga desafeto e nisso atravessa a pista onde os carros passam num velocidade considerável. Mas mesmo assim o Valente considera que a pista é dele e portanto ele tem a preferência. Já escapou de ser atropelado algumas vezes, até que deixando de confiar na sorte decidi confiar na coleira com a qual o seguro antes que invada a frente de algum carro.
-
Pois nessa noite vendo seu olhar brilhante onde se lia nitidamente a pergunta "...Quando vamos sair...?" decidi levá-lo comigo. Só de pegar a coleira ele deu pulos de bater qualquer marca olímpica e deu latidos capazes de fazer qualquer cantor de ópera sentir-se com um rival a altura. Já com o Valente encoleirado, fui saindo com ele e oras, estava se armando um tempo de chuva, mas uma pequena volta não seria um grande risco de voltarmos encharcados.
-
Fomos caminhando para o portão e aí presenciei a morte e ressurreição do meu amigo. Pouco antes de pegar a chave, com a luz que nos atingiu me pareceu que um flash fotográfico gigante havia sido disparado sobre nós dois. No décimo de segundo seguinte tive a impressão de que o canhão de um tanque de guerra havia sido disparado na nossa frente.
-
Era um raio e dos grandes e mostrando um clarão nada amigável. Ao mesmo tempo em que me abaixei quase caindo para trás, assim que o susto passou e enquanto o estrondo ecoava pela cidade toda, pude ver meu amigo iluminado pela fraca luz do poste da rua, imóvel, de rabo empinado e orelhas levantadas. Chamei-o pelo nome e dessa vez ele não atendeu. Pensei se não teria sido fulminado por algum choque e toquei na sua cabeça, eu mesmo ainda trêmulo. Ele virou a cabeça para mim e em seus olhos havia uma tal expressão de perplexidade que creio que pude entender o que ele pensava. Em seu pensamento canino, com toda certeza já se dava por fulminado e morto pelo raio e olhava o mundo além-vida, para onde acreditava ter sido levado, talvez notando a semelhança do portão do céu canino com o portão da casa onde vivera.
-
Ora, sentindo o toque na cabeça devia continuar vivo deve ter pensado, então ainda estava nesse mundo. Nem tive tempo de segurá-lo e correu sala a dentro e enfiou-se embaixo do seu abrigo anti-raios, a mesa da sala. Com a chuva começando a cair em gotas pesadas, voltei. Fechei a porta e o olhei, bem encolhido embaixo da mesa. Melhor assim, meu amigo estava vivíssimo.
-
Nem mesmo o prato de ração o tirou debaixo da mesa enquanto continuavam os trovões e raios. Mas claro, depois que os céus ficaram calmos, ainda que de forma cautelosa ele saiu para espiar os arredores com ares de grande valentia.
-
Continuava enfim, vivo e portentoso o Príncipe não tão Valente assim, mas não posso falar muito. Eu mesmo quando afaguei sua cabeça depois do estrondo tinha as mãos trêmulas. Para manter minha pose junto à do Príncipe, atribuí os tremores aos exercícios feitos antes da nossa saída. E terminamos nós dois com a nossa coragem intacta naquela noite de chuva.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

R31 A partida

Eu sabia que viria este dia...
Está próximo o dia em que as árvores da floresta que tem sido meu templo particular por esses anos serão cortadas. Mas não tenho porque me lamentar. Faz parte de um ciclo. Fosse eu o dono dessas terras e não seriam cortados esses eucaliptos que tantos sonhos abrigaram. Mais que isso momentos de reflexão, coisas da vida.
-
Há alguns anos atrás voltava eu da cidade grande imerso numa situação de vida nada fácil. Cheguei de noite e não tinha visto ainda. De dia, mais um motivo para desanimar. A floresta que me trazia tanto alento se fora. Para onde olhasse eu via apenas árvores cortadas. Eu nem conseguia acreditar. Fotografei a floresta ou o que havia restado dela em preto e branco e guardo as fotos até hoje.
-
Mas acompanhei seu crescimento, pude ver os pequenos brotos crescendo, desfrutei de sua nova sombra em dias ensolarados e voltei a sentir seu perfume em noites de verão e enquanto ela crescia passei na sua frente levando meu irmão e minha mãe para a última viagem de suas vidas. Ela abrigou minhas lágrimas e por esses tempos de renascer, sonhos lindos e momentos que não quero esquecer.
-
Mas como disse, faz parte de um ciclo. Depois de alguns anos a árvores são cortadas, enquanto que os trabalhadores ao mesmo tempo em que cortam, já preparam o plantio de novas mudas. Sei então que vão renascer. Me pergunto se estarei aqui para ver.
-
São coisas da vida. Espero que eu esteja aqui para ver mais momentos como esses. Só vou viver uma vez mas sei que a Floresta Branca vai viver para sempre, esteja eu onde estiver.