
Pois sempre apoquentado quando saio e querendo sair junto nem sempre posso deixar que ele caminhe junto comigo. Tem o péssimo hábito de correr atrás de algum outro canino que julga desafeto e nisso atravessa a pista onde os carros passam num velocidade considerável. Mas mesmo assim o Valente considera que a pista é dele e portanto ele tem a preferência. Já escapou de ser atropelado algumas vezes, até que deixando de confiar na sorte decidi confiar na coleira com a qual o seguro antes que invada a frente de algum carro.
-Pois nessa noite vendo seu olhar brilhante onde se lia nitidamente a pergunta "...Quando vamos sair...?" decidi levá-lo comigo. Só de pegar a coleira ele deu pulos de bater qualquer marca olímpica e deu latidos capazes de fazer qualquer cantor de ópera sentir-se com um rival a altura. Já com o Valente encoleirado, fui saindo com ele e oras, estava se armando um tempo de chuva, mas uma pequena volta não seria um grande risco de voltarmos encharcados.
-Fomos caminhando para o portão e aí presenciei a morte e ressurreição do meu amigo. Pouco antes de pegar a chave, com a luz que nos atingiu me pareceu que um flash fotográfico gigante havia sido disparado sobre nós dois. No décimo de segundo seguinte tive a impressão de que o canhão de um tanque de guerra havia sido disparado na nossa frente.
-Era um raio e dos grandes e mostrando um clarão nada amigável. Ao mesmo tempo em que me abaixei quase caindo para trás, assim que o susto passou e enquanto o estrondo ecoava pela cidade toda, pude ver meu amigo iluminado pela fraca luz do poste da rua, imóvel, de rabo empinado e orelhas levantadas. Chamei-o pelo nome e dessa vez ele não atendeu. Pensei se não teria sido fulminado por algum choque e toquei na sua cabeça, eu mesmo ainda trêmulo. Ele virou a cabeça para mim e em seus olhos havia uma tal expressão de perplexidade que creio que pude entender o que ele pensava. Em seu pensamento canino, com toda certeza já se dava por fulminado e morto pelo raio e olhava o mundo além-vida, para onde acreditava ter sido levado, talvez notando a semelhança do portão do céu canino com o portão da casa onde vivera.
-Ora, sentindo o toque na cabeça devia continuar vivo deve ter pensado, então ainda estava nesse mundo. Nem tive tempo de segurá-lo e correu sala a dentro e enfiou-se embaixo do seu abrigo anti-raios, a mesa da sala. Com a chuva começando a cair em gotas pesadas, voltei. Fechei a porta e o olhei, bem encolhido embaixo da mesa. Melhor assim, meu amigo estava vivíssimo.
-Nem mesmo o prato de ração o tirou debaixo da mesa enquanto continuavam os trovões e raios. Mas claro, depois que os céus ficaram calmos, ainda que de forma cautelosa ele saiu para espiar os arredores com ares de grande valentia.
-Continuava enfim, vivo e portentoso o Príncipe não tão Valente assim, mas não posso falar muito. Eu mesmo quando afaguei sua cabeça depois do estrondo tinha as mãos trêmulas. Para manter minha pose junto à do Príncipe, atribuí os tremores aos exercícios feitos antes da nossa saída. E terminamos nós dois com a nossa coragem intacta naquela noite de chuva.