
Enquanto arrumo as botas, mochila, água e tudo mais, ainda vejo na televisão as notícias de última hora sobre o trânsito. Ora essa, eu aqui imaginando que todos já haviam fugido de São Paulo ontem a noite mesmo, mas nada disso. Alguma coisa deve ter dado errado. Atrás do repórter aparece uma fila inacreditável de carros. Parece que todos decidiram sair na mesma hora e na mesma estrada. Que coisa.
-Ao chegar na pista, vejo que o repórter deve ter filmado algum pedágio aqui perto. Incrível o número de carros que passam. A pista que vai para São Paulo está vazia. Suado, ponho a mão no asfalto e sinto que deve estar uns 40 graus ou mais por aqui. Percebo que meu corpo se adaptou com essas caminhadas. Se me perguntassem como me sinto, diria que parece uma ida até o supermercado. Há meses atrás, quando inciei essas caminhadas, ao voltar desabei em cima da cama, com os pés em fogo e as orelhas vermelhas de sol. O único pensamento que me vinha à mente era sobre testamento e últimas vontades.

Chego no meio da caminhada e vejo um carro sob a sombra de uma árvore, com placa de São Paulo. Livres do medo generalizado da cidade grande, o casal aproveitou a parada na pista, a sombra e o ar fresco para comer um sanduíche. Fosse na cidade grande já teriam sido ou assaltados ou abordados por uma viatura policial. Dentro do carro está um cachorrinho típico de apartamento. Bem pequenino para ocupar pouco espaço, pêlos cuidadosamente escovados e fitinhas perto das orelhas para parecer sociável para o síndico e para os vizinhos. Que situação.
-Vou caminhando e vendo que, como no último feriadão, todos me olham como se eu fosse de outro planeta. Também pudera. Com esse sol, na contramão e na subida. Continuo a caminhada, chego ao topo e vejo de onde saí há coisa de uma hora.
-Mais uma hora e chego em casa. Calça e camiseta suados e até a mochila molhada de suor. É, meu corpo se adaptou, caminho até a geladeira no maior sossego para tomar um café com leite gelado. Vou esperar o fim do feriadão para sair novamente e ver o retorno das famílias mecânicas de novo.
-Depois de trocar de roupa, olho para as botas e admiro o trabalho do sapateiro, de meses atrás. Vou ter que voltar lá, mas a troca que ele me sugeriu da sola original por sola de pneu de caminhão foi a melhor coisa que já vi. Olhando para as botas e relembrando todas as caminhadas, só agora, depois de uns 200 quilômetros é que vou precisar recolar o solado. Que divertido.

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