
Chego agora em casa, ainda me refazendo de um dia pesado. Trabalho com sol a pino e no fim da tarde, por coisas da vida acabei vendo um sol poente que não conhecia.
Vi há pouco o olhar cansado de uma senhora idosa. Seus olhos me fitavam com uma expressão de tristeza, mas mais além da tristeza um cansaço sem igual.
Cansaço da vida. A vida que vi como o fio de uma lâmina. De um lado a vida vivida, de outro uma vida que prometem os crentes, é a vida em glória.
No meio disso tudo, uma lâmina que também descrita pelos escritores de todo mundo, que por certo já se prepara para seu trabalho.
Conversei com ela, tomei sua mão, cuidei de perguntar de o cobertor a agasalhava. Ela se sentia confortável. Mas nos seus olhos pude ver o brilho das lágrimas que desciam aos poucos. Não havia choro, nem sua voz estava alterada. Apenas exprimia o cansaço de uma vida como a de todos nós. Trabalho, sonhos que nunca se realizaram, dores, alegrias, tristezas, tudo isso se fundia em sua voz débil, me falando com mansidão.
E no brilho de sua lágrima, vi esse sol poente de uma vida que se vai, que ainda tem um tempo aqui, mas se vai aos poucos. Assim como o sol poente.

Beijei seu rosto, cobri seu corpo e percebi que ela começou a dormir. Senti uma tristeza sem fim. Busquei amparo na imagem da mulher que amo, especialmente no calor e no brilho vivo do seu olhar. Lembrei-me das vezes em que ela me deu a mão e me ajudou. Fiquei melhor, de olhos ainda úmidos, mas melhor.
Olhei mais uma vez para minha mãe deitada, coberta e aquecida e mostrando para mim, nessa lágrima, o sol poente que um dia também terei em meu olhar nesse momento, talvez também com uma lágrima.
