quarta-feira, 14 de julho de 2010

L01 Os homens de preto

A vida em preto...
Um grande sucesso de audiência no mundo todo foi o filme "Os homens de preto" onde Tommy Lee Jones e Will Smith interpretavam dois divertidíssimos agentes de uma organização mundial, destinada a acolher e proteger no nosso planeta alienígenas amistosos em trânsito e a combater sem pena alienígenas perigosos.

Quem não riu com as peripécias dos dois, que além de esbanjarem carisma, distribuiam simpatia em sua visão bem humorada do mundo que tinham que proteger e das tiradas cheias de humor que viviam com os extraterrestres amigos?

Foi de forma parecida que fui ouvindo o programa da conhecida rádio católica "Canção Nova" com as prédicas de um padre sobre como viver santamente o namoro. De certa forma, acredito eu, vestido de preto e falando sobre esse tema que posso supor que lhe é absolutamente desconhecido, o padre pareceu-me na imaginação uma mistura de homem de preto com alienígena. Tem um roupa peculiar e ao que tudo indica chegou aqui há pouco tempo mas se dedica a converter os terráqueos à sua visão do sexo e posso entender que pelas regras da igreja dele, nunca tenha tido a dita relação, alegria dos namorados e preservação da nossa espécie.

Sim, porque em última análise fala sobre o relacionamento sexual, que pretende que seja ouvido e seguido ao pé da letra por sabe-se lá quantos casais de namorados que estejam a ouvi-lo.

Esclareço que sou ateu, crença por assim dizer, a que me converti lá pelos 35 anos, depois de uma mocidade de dúvidas e ao final disso de decidida leitura da Bíblia, quando após ler atentamente o verdadeiro teatro de horrores que dizem ser palavra da salvação, entendi que afinal não existe deus nenhum e acreditem, existe vida plena depois de aceitar-se isso, uma vida até melhor, sem as sombrias nuvens da culpa e da condenação eterna.

Mas gosto ainda de ler as revistas católicas que encontro em salas de espera de consultórios ou dentro de igrejas onde entro quando uma chuva me pega de surpresa. Afinal, além do lugar quieto, você tem onde sentar até que a chuva passe. Destaque para as igrejas como a Universal do Reino de Deus, que oferece o jornal grátis, com bons artigos para reflexão e no fim do corredor, banheiros higiênicos e de impecável brancura.

E fui ouvindo os conselhos do padre, dizendo que o namoro tem que ser vivido santamente e volta e meia lendo cartas de namorados que diziam que viviam seu namoro santamente. Ao que tudo indica viver o namoro santamente é namorar na casa dos pais, com o papai e a mamãe do rapaz ou da moça presentes ao alegre enrosco amoroso dos dois.

Depois o padre advertia, acompanhado pela apresentadora, com conselhos sobre não ser um namoro santamente vivido esses em que o casal vai numa balada, namora dentro do carro ou que pecado, dentro do motel, que horror.

Prosseguindo em pormenores e inclusive condenando o uso de preservativos, essa inocente capinha de borracha, para ele crime dos crimes, o padre fazia uma colorida descrição das formas em que um namoro deve ser santamente vivido.

Fiquei aqui a pensar comigo. Se perguntarmos ao padre se ele já namorou, é provável que diga que não, que iniciou sua vocação sacerdotal cedo. Nem faz idéia do que é namoro. Se quisermos saber se ele já teve relações sexuais, Vade Retro dirá ele empunhando o crucifixo, nunca teve relações sexuais, sua igreja assim o proíbe. Tão coerente quanto isso, só um leigo dizendo numa rádio como os padres devem rezar a missa.

Mas se nunca namorou, nunca teve relações sexuais, como fica a dar conselhos num programa de rádio sobre como deve ser o namoro ou como deve ser feito o sexo? Só restam alternativas nada confortáveis. Ou o padre fala porque deu algumas escapadas para namorar durante sua formação no seminário ou então depois de ordenado foi ver em pessoa como é fazer sexo, para não ter mais dúvidas ao dar conselhos. Fora isso como vai falar do que não faz e não conhece?

As outras alternativas o deixam numa situação de palestrante conhecedor de constrangedores segredos. Ter lido atentamente sobre namoro e ato sexual em revistas ilustradas ou recebido o caridoso conselho e descrição do namoro e do sexo da parte de algum casal da sua igreja. Que mais pode ter sido então? Se não fez as duas coisas, não sabe como é.

Muitas pessoas ainda se lembram do caso de um padre cantor salesiano, que abandonou a batina e se casou com uma conhecida apresentadora de televisão. Se acreditarmos que ele a conheceu, apaixonou-se e largou a batina no mesmo dia para casar, ficamos a imaginar que exatamente por não entender do assunto, perdeu-se ele nos caminhos do namoro, do amor e do sexo por muito tempo e em total segredo, como fazem os namorados hoje em dia, até sentir que essa história de viver tudo santamente é um aborrecimento sem fim. E lá se foi ele, sem medo de ser feliz. Com a desenvoltura que esses padres tem ao falar, podemos imaginar quantos segredos eles tem. Talvez sim, talvez não.

Fui ouvindo o padre em suas admoestações finais e fiquei a relembrar dos dois personagens do filme. Eles pelo menos tinham uma vida divertida, sem culpas e carregada de humor.

Enquanto isso seguem os padres, de preto e numa vida também de preto, pretendendo dar conselhos sobre o que é branco.

terça-feira, 22 de junho de 2010

C01 Pecados de guerra

Um filme para não esquecermos...

"Pecados de guerra" é um filme que impõe perguntas. As mesmas que fazemos hoje no Brasil. Depois do incidente em São Paulo onde um jovem da periferia, mais um, foi espancado até a morte na frente de sua mãe por policiais militares agora presos, é necessário repensarmos o que é nossa polícia. Repensar é a única coisa que uma população indefesa pode fazer por ora. A pergunta que podemos começar fazendo a nós mesmos é porque nenhum jovem que mora no bairro do Morumbi ou Jardim Europa em São Paulo é morto da mesma forma. Os policiais sabem a resposta. Nestes bairros riquíssimos moram importantes autoridades estaduais e federais, políticos, magistrados e outros capazes de triturar até mesmo o comandandate da polícia. Publicado originalmente em 27.05.06 em http://vellker.blog.terra.com.br/

Filme recomendado
Pecados de Guerra

1989 - Direção de Brian de Palma, com Sean Penn, Michael J. Fox - LK-TEL Vídeo

Muitas vezes no cinema percebemos o quanto um filme mostrando outro povo, outro mundo, outros personagens pode na verdade, trazer um reflexo igual ao que vemos nas ruas nesses dias. Baseado em fatos reais, a partir da reportagem e livro denúncia de um repórter americano em 1969, sobre o sequestro de uma jovem vietnamita, que foi levada de uma aldeia por soldados americanos, violentada e morta durante uma patrulha.
Ao retornarem para a base, tentaram ocultar o fato, já que um dos soldados que tentara salvar a moça e quase tinha sido morto por isso, havia denunciado o acontecido para seu líder de pelotão, recebendo como resposta nada além de pouco caso.
No desenrolar da narrativa, ele, ao confrontar-se com a frieza com que não só seu pelotão, mas todos os soldados recebiam o acontecido, começa a se ver ameaçado de morte, escapando de atentados e perdendo a capacidade de distinguir o que é a defesa de uma corporação e a ocultação de um assassinato que levaria todos para a cadeia em suas cidades.

Destaque para a interpretação do ex oficial Dale Dye, que realmente combateu no Vietnã, atuando como conselheiro militar do diretor e também em ponta como ator, no papel do oficial que tenta encobrir tudo com a transferência do soldado.


No final, como foi na realidade, tudo acaba sendo descoberto pela ação da imprensa. Ao mesmo tempo que pensamos em ir para a locadora, podemos saber das últimas notícias sobre a execução de 109 suspeitos nas ruas nos incidentes desta semana e pensamos sobre o quanto podemos estar seguros ou inseguros, se formos vistos como suspeitos por uma tropa armada e assustada nas ruas.

E de como seríamos considerados um pecado de guerra se fôssemos atingidos. Ou como dizia um dos soldados ao tentar evitar a denúncia, no filme ´...O que acontece na selva, fica na selva...´.

O que acontece nas ruas, fica nas ruas, é o que podemos depreender do comportamento do comandante da PM de São Paulo ao falar para a imprensa sobre os 109 mortos que...nenhum suspeito inocente foi morto...

Interessante. Se eram apenas suspeitos, porque foram mortos? E se eram suspeitos, eram suspeitos do quê? Então a polícia admite que apenas a simples suspeita basta para qualquer um nas ruas cair crivado de balas? Estamos vivendo assim o mesmo tempo de insegurança que viviam os cidadãos de países como a Guatemala, El Salvador e Nicarágua de Anastasio Somoza, onde a simples suspeita ou a falta da carteira de identidade levava um cidadão a ser executado porque suspeitavam dele.

Nada poderia ser pior para qualquer um do que ver, que na realidade, essa corporação policial só se preocupa em se defender e defender os que a defendem, sem maiores considerações que não uma espécie de irmandade tribal, excluindo totalmente o cidadão comum de seus cuidados e colocando na alça de mira de sua vingança qualquer um pelo simples fato de parecer...suspeito. Não é preciso ser culpado. Hoje realmente não estamos livres de sermos nos dias que correm, de sermos confundidos com suspeitos.

No entanto percebemos que a suspeição da polícia é extremamente seletiva. Não consta que tenham caído suspeitos que andavam pelos bairros nobres, de gente rica, poderosa e influente, como os Jardins, Morumbi ou Avenida Paulista. Onde mesmo que o passante lá seja suspeito, com certeza terá uma família que será capaz de dar o troco, seja por via judicial, política ou executiva.

Para que um tribunal? Para que um judiciário, um juiz, um promotor, um defensor ou um jurí, se o guarda da esquina pode decidir que você é suspeito e portanto apertar o gatilho...?

Links a verificar:
Guerra do Vietnã
Pecados de Guerra
Defensor comenta as mortes e fala de inocentes atingidos

domingo, 13 de junho de 2010

R25 Dia dos Namorados...sozinho...

Sonhos de um dia... Ontem, Dia dos Namorados. Estou só em casa. a mulher que amo, distante. Nós dois, por contingências da vida estamos ainda distantes, mas o amor floresce em nossos corações. E toda vez que podemos estar juntos, tudo o que sonhamos, vivemos, de corpo e alma.

Ontem, um dia especial de lembranças desse amor. Relembro os dias que já vivemos, penso no reencontro que logo teremos e ao mesmo tempo, se sinto uma alegria profunda, sinto também um tristeza. A única coisa que me deixa melhor é essa trama, diria, esse jardim de lembranças, cheio de flores que nós dois plantamos nesse tempo todo.
Abro o guarda-roupa para pegar mais um agasalho e vejo a marca de baton que pedi a ela que deixasse no espelho. Está lá até hoje, como uma presença. Olho para alguns livros do meu lado na cama e me lembro da figura dela, deitada, quase pegando no sono, quando está aqui, depois que voltamos de um passeio, de um cinema. Me lembro de lençóis molhados de suor e amor das noites de verão e sinto saudades do calor de noites assim. Calor do tempo e calor do amor.

Nessas noites de frio, relembro de quando nos cobrimos e nos abraçamos. Do momento em que ela sempre pede mais um beijo antes de dormir. De ver seu sono chegando enquanto a abraço por trás e sussurro palavras de carinho em seu ouvido. Eu sempre durmo depois disso.

Penso em ver um filme e antes disso lembro dos momentos em que nos emocionamos na nossa cama, assistindo a filmes que mostravam grandes histórias de amor. Lembro de ocultar uma lágrima enquanto assistia o filme "Anna Karenina" com ela, uma história de amor que tira lágrimas de qualquer um.
Ligo a televisão e acompanho uma divertida comédia romântica. No final tudo dá certo para a moça do filme, que termina junto do seu grande amor. Olho mais uma vez para o lado em que ela dorme na cama e por um momento posso sentir sua presença ao fechar os olhos.
Tenho vivido assim, com essas lembranças e sempre que podemos, estamos juntos e então flui todo esse amor guardado por tanto tempo, com essa distância toda entre nós. Um dia não teremos mais essa separação.

É um dia especial mesmo por poder sentir tudo isso. Uma vez assistimos o filme "As pontes de Madison". Quem não abre o coração para o amor vendo um filme desses? E eu alí, junto dela, sentindo sua pele macia, seu carinho, sua emoção vendo o filme. Emocionar-me junto com ela. É coisa que me deixa de olhos úmidos agora.

Lembro dela quando saímos uma vez, seu olhar alegre, ela ajustando a alça do seu vestido, perguntando se estava bem. Estava linda. Seu ombro sempre pedindo um beijo e nós caminhando e conversando e eu sempre notando seu olhar brilhante enquanto ela me contava coisas da vida.

E me lembro também de quando chega o momento da partida, minha ou dela. Quando nos abraçamos e vejo seus olhinhos molhados e os beijo. Se quem diz amar, realmente sente alguma coisa no momento da separação, então ama mesmo.

Assim, nesse dia, tenho lembranças, tenho sonhos e percebo que no fundo não estou só. Lembranças, sonhos e esse amor todo. É como se fosse uma ponte até ela.

Até parece um filme que vimos.

terça-feira, 1 de junho de 2010

D12 O príncipe valente

Vida de cachorro...
Tenho aqui comigo um bom amigo. Usualmente as pessoas referem-se aos seus cães como donos. Fico a pensar se os cães não se portam da mesma forma ao conversarem com seus amigos caninos sobre seus auto-supostos donos, em seu idioma de latidos.

Seja lá como for creio que ele me considera amigo também De toda forma nossa amizade foi crescendo ao longo desses anos. Há 7 anos atrás ganhei esse amigo. Era tão pequeno que nos primeiros dias dormiu numa caixa de sapatos acolchoada. Aos poucos foi preciso uma caixa de papelão, com uma portinha, onde ele se recolhia com ares de proprietário, não só da cixa mas como da casa também. Atravessei como todos os que se aventuram a ter um amigo assim, o martírio de noites ouvindo seus ganidos assim que apagava a luz, até que ele perdeu o medo do escuro.

Com ele já um pouco maior, percebi que a grande diversão dele era dar um pulo e abocanhar lençóis e roupas no varal, que tive que subir. Mas enquanto crescia, era mesmo divertido levá-lo para passear. Buliçoso e curioso, descobria o mundo com seu focinho imenso e suas orelhas sempre em pé. E ao mesmo tempo desenvolvia um desconcertante senso de coragem, todo próprio.

Eu já o vi correr de cachorros pequenos e ao mesmo tempo, alguns quarteirões à frente dar uma corrida em cachorros do mesmo tamanho. Aos poucos percebi que quando ele corria dos pequenos era como se dissesse que só estava de passagem pelo quarteirão e não queria encrenca. Haja visto que quando bem pequeno adotou como mãe uma gata velha que vivia no quintal.
E quando late no quintal da frente então? Uma fúria, mas assim que abro o portão para a visita ou carteiro, ao invés de avançar contra o coitado, passa a latir de uma razoável distância. E depois que a visita vai embora, dá mais uns latidos de advertência, sem dúvida para mostrar que vale a ração que come, enquanto dá voltas no quintal para mostrar a estranhos que alí está um príncipe valente. Depois entra e se deita no canto da sala, seu lugar preferido com cara de dever cumprido.
Mas o dia em que ri mesmo foi quando ele entrou num pasto com uma boiada e latiu corajoso para todos os bois. Os bichos deixaram de comer capim e vieram em peso para cima dele. Até hoje rio ao lembrar de quando vi o olhar desconcertado que ele me lançou, assustado com a manada que vinha para cima dele. Abri o arame farpado e ele dizendo obrigado com o olhar pôs-se a latir valente do lado de fora do pasto. Foi aí que não tive mais dúvidas. Ele era mesmo um príncipe valente, á sua moda, é claro. A boiada veio mansa, acostumada a seguir os latidos do cachorro da fazenda. Mas ele que viu aquilo pela primeira vez, correu o quanto pôde. Para disfarçar, andou pelo resto do caminho todo altivo, como se a boiada é que tivesse corrido dele.

Nessas noites de frio, ao deixar uma porção de ração para ele, abro a cortina de sua casinha e o vejo feliz e relaxado. Lá dentro, com a madeira e o estofamento aquecidos, está um ar quente que o protege do frio. Ele abana o rabo ao ganhar mais um pedacinho de salsicha e fica confortável, pronto para mais uma noite de sono. E de latidos se preciso for.

No outro dia, de tarde, quando o sol já aqueceu o cimento do quintal, ele sai, deita e aproveita esses momentos até começar a esfriar de novo. Mal alguém começa a conversar na rua, ele sai latindo como se fosse um leão, até ver que são apenas vizinhos, que ele já conhece.

Mas volta com cara de missão cumprida e tendo provado mais uma vez que vale a ração que come, ele se deita para aproveitar mais uma dormida sobre o cimento quente, enquanto o sol afasta todo frio.

Não é vida de cachorro, é vida de príncipe. Valente a seu modo, é claro.

sábado, 22 de maio de 2010

R24 Marcas

Demora mais do que pensamos... Por esses dias percebi de forma mais comovente mas ao mesmo tempo menos dolorosa que ainda vou levar um bom tempo para me recuperar da morte da minha mãe.

Parece-me impossível que esteja escrevendo no mesmo lugar onde ela viveu seus últimos momentos. Dói ainda repassar tudo isso na mente e eu nem mesmo quis isso neste tempo todo. Simplesmente os pensamentos vem, não há o que fazer.

Parece impossível...Escrevi coisa assim há muitos anos atrás. Pareceram-me impossíveis os acontecimentos de um dia dessa semana. Me lembro que um psicólogo estudou essas coincidências profundamente. Coincidências muitos especiais ligadas a emoções. Psicólogo é uma forma de dizer. Era mais que isso, era Carl Gustav Jung, no fundo um cientista.

Indo buscar um livro na biblioteca passei novamente na frente do cemitério. Procuro evitar esse caminho. Olho na direção onde estão meu pai, meu irmão e minha mãe e sinto uma dor que disfarço com o rosto impassível, mas por dentro desabo.

Vi o tempo nublado e lembrei de como meu irmão gostava de tempo assim, com uma garoa prestes a cair. Lembrei do desespero dele quando eu saía do seu quarto no hospital nas madrugadas em que estive do lado dele e o acalmava. Só ia tomar um pouco de ar, ver as estrelas e voltava. Depois o ajudava no que podia. Uma manhã ainda o amparei e vi em seu rosto a última lágrima que ele verteu. Ele queria viver, sabia que estava morrendo, mas queria viver. Foi tudo o que vi naquela lágrima.

Logo depois que ele morreu, depois de visitar o cemitério, eu ia passando neste mesmo caminho quando um cano rebentou e a água jorrou como se fosse uma fonte. Ali mesmo me lembrei da tristeza dele nos últimos dias por quase não poder beber água. Pelo lado místico das coisas, aquela pequena fonte na minha frente pareceu uma coisa do acaso, um pequeno signo, desses que nos transmitem a sensação de que com ele estava tudo bem, não havia mais sede nem dor. Talvez houvesse mesmo um mundo além desse, me peguei pensando, eu, um cético sobre essas coisas.

Diferente dele meu pai esperava a morte como uma libertação. Mesmo no hospital conversávamos, ele por vezes declamava versos sobre as ironias da vida, eu o fotografava, ele sabia que eram as últimas fotos mas sorria e conversava comigo, até a hora da visita terminar. Eu prometia voltar, saía com suas fotos e então me permitia ficar de olhos úmidos. Mesmo ali meu pai me concedia seus últimos sorrisos. Estava pronto para ir e queria me deixar uma imagem de alegria, de firmeza, de pai amigo em todas as horas, até nessas. E deixou. Numa noite pouco antes da sua morte assisti ao filme “Encontro Marcado” onde Anthony Hopkins interpreta um homem que é visitado pela Morte, que diz que veio buscá-lo, que ele tem poucas horas de vida e ele se diz pronto, apenas queria passar os últimos momentos perto da filha. Não pude deixar de ver uma certa semelhança em tudo isso. Um pequeno signo naquela época. Mesmo escrever enquanto ele estava inconsciente...Me parece impossível que esteja olhando para meu pai morrendo...E não consegui escrever mais.

Minha mãe, profundamente religiosa, sempre rezou por ele. Como mãe passou pela provação de estar com o filho quando ele morreu. No ano passado adoeceu e passou por outro sofrimento tão intenso que a impressão que me ficou é que a pessoa que eu era desapareceu. Ficou uma outra que eu não conhecia e vez por outra eu volto, até submergir novamente nessa dor. Lembro da minha mãe, com sua veneração pelo símbolo da cruz do rosário que tinha, com o qual orava todos os dias. Durante a doença, que foi um sofrimento sem tréguas, acreditava num milagre. É uma das coisas que mais doem em quem assiste a isso. A pessoa acredita que amanhã virá um milagre, mas ele não vem. Manhã após manhã ao despertar, a pessoa percebe que a dor está alí, o milagre não. Relembro minha última visita a ela no hospital, sua expressão de dor, os carinhos, o beijo em seu rosto e a promessa de voltar logo à tarde na próxima visita. E depois a notícia de que enfim seu sofrimento havia terminado.

Relembrando tudo isso fui descendo a rua e vi, caído no chão, um crucifixo cintilante. Até me admirei que estivesse sem nenhum arranhão, caído na rua, quando na minha frente um jovem chegou quase correndo e fez o sinal de graças aos céus, se abaixou, pegou a pequena cruz e me disse:

- Encontrei...Você não sabe a importância que isto tem para mim, graças a Deus achei de novo.

Ajeitou a pequena cruz numa correntinha e atravessou a rua feliz. Lembrei da minha mãe e seu rosário. Pensei se não era um signo novamente. A pequena cruz brilhante e perfeita. Então nessa outra vida que dizem existir não há para ela mais dor nem sofrimento. Apenas o conforto de uma vida além dessa, tão brilhante quanto aquela pequena cruz.

Seja como for, emocionado cheguei ao centro da cidade e para me esquecer de tudo decidi entrar numa livraria e ver alguns livros. Na estante de filmes, bem na minha frente estava o dvd do filme “Encontro Marcado” que só vi quase na noite em que meu pai morreu. Me lembrei do meu pai naquela mesma hora.

Sou cético, mas por vezes esses acontecimentos me surpreendem. Penso nesses signos que as pessoas que crêem numa outra vida falam. Emocionado sinto o peito doer. Fico a pensar se tenho muito tempo de vida ou pouco. Sabe-se lá. Ao mesmo tempo, com essas coisas acontecidas, pareceu-me que se ainda sinto dor, ao mesmo tempo a dor vem agora como uma pequena onda, não como aquela tempestade que me envolveu. Na perspectiva da morte me sinto estranhamente calmo, pensando que talvez ela aconteça logo. Pareço ouvir meu pai dizendo que estava pronto, sem medo de partir. Olho as estrelas lá fora e penso qual desses dias ou noites será a última coisa que verei.

Seja lá como for, me parece que estou pronto. Essa outra pessoa que me tornei só espera que seja rápido.

Não é pedir muito, se alguém estiver realmente sabendo do outro lado.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

R23 Calor

Nem sempre é o verão...

Ontem conversei com a mulher que amo. Em alguns momentos com os olhos úmidos. Já não me surpreendo mais com esse sentimento que por vezes me bate, com a distância entre nós, que sempre que podemos deixamos de lado e ficamos então juntos.

Talvez seja essa distância ainda nesses tempos que vivemos que mantenha esse amor aceso, apesar de todos os percalços e tristezas que vem de momentos em momentos. O desejo de nos revermos sempre que podemos traz em si uma recompensa que é difícil descrever. Mais que tudo amo vê-la quando nos preparamos para domir, enrolada na manta e sempre antes de fechar os olhos se vira para mim e pede mais um beijo. Olho para sua figura depois, somente os cabelos negros fora da manta e a beijo mais uma vez. Ela se mexe um pouco como se fosse uma criança ganhando um carinho e continua dormindo.

Eu sempre com esse sono difícil estou do lado dela, terminando de ler mais uma página de alguma coisa sobre política, essa a única que sempre lhe dá algum ciúme de vez em quando.

Aos poucos o sono chega e antes que venha de vez já me acostumei a um ritual. Me levanto, fervo água e faço um pouco de chá para ela. Sonolento ainda cuido de misturar um pouco de áçucar que é como ela gosta, ponho o chá na caneca de louça e levo para ela. Nada melhor do que vê-la acordando, ver seu olhar feliz ao pegar a caneca e tomar o chá. Depois arrumo a manta sobre ela, dou-lhe mais um beijo e me deito do seu lado. Aos poucos o sono me leva a sonhar junto com ela.

Momentos assim é que fazem uma relação valer a pena. O momento do descanso da noite repleto de carinho de um e de outro. Ainda antes de pegar no sono me lembro do olhar dela, vivo, cheio de luz qando me conta os casos da vida, seus sonhos e aí adormeço.

Ontem caminhando e sentindo o frio da noite, não pude deixar de ficar de olhos úmidos ao me lembrar de tudo isso. Voltei para casa sentindo essa ausência, mas acima de tudo o sentimento de amor que nos mantém juntos e como vivemos com intensidade cada momento de nossos reencontros, até o dia em que estaremos juntos.

Enquanto voltava tive a sensação plena do que havia dito a ela. Que seu amor cobriu meu coração como se fosse uma manta, deixando-o aquecido, protegido do frio.

Enquanto abria o portão me lembrei de uma paisagem das montanhas. E senti que só essa lembrança e a certeza de nos vermos logo era como se eu estivesse num cenário desses, o sol se pondo na tarde, a névoa fria das montanhas chegando, mas ao mesmo tendo eu divisando na paisagem uma cabana, dessas bem simples, mas acolhedoras, aquecidas, protetoras.

E que entrando alí, me vi envolvido numa onda de calor suave, numa cama simples mas macia, com uma pequena lareira aquecendo tudo. De fora pelas frestas da janela, senti o perfume de flores do campo. Ao me aconchegar na cama, me cobri com a mesma manta que ela usa. Foi só um sonho de um instante, mas um dos mais doces que já tive.

O mais doce de tudo é saber que seu amor recobre meu coração como essa manta. Por isso meus olhos ficam úmidos. Mas a lágrima, se tem um brilho de saudade, tem também o brilho da certeza de estar protegido e aquecido nesse amor.

Sinto essa manta me aquecendo e durmo depois de te dar mais um beijo.

sexta-feira, 19 de março de 2010

R22 A marca

Marcas ficam...

Estive por esses tempos, apesar do correr da vida, mais do que pensativo. Muitas foram as reflexões, mais que isso as emoções fortes, impossíveis de evitar nas relembranças da morte da minha mãe. Sou o último da família, passei por isso antes, mas desta vez ao lado das outras marcas na minha alma, essa foi a mais forte, a mais nítida de todas. Por vezes olhando para os caminhos do sentimento dentro do meu coração, me parece que só encontro ruínas, mas junto delas, sempre um caminho para ir em frente.

Se não tivesse tido o carinho da mulher que amo, não sei como teria passado esse tempo. Acima de tudo quando nos vimos, sua compreensão de tudo o que aconteceu, seu carinho, seu amparo, seu riso e seu olhar feliz em nosso reencontro foram tudo para que eu pudesse aos poucos começar a me refazer.

Às vezes, ao olhar para essas menininhas passeando com suas mães na rua, pequenas, magrinhas, de uns 5, 6 anos, com seu sorriso e sua voz estridente e risonha penso que uma dia minha mãe foi assim. E sem querer, do fundo da alma vem a lembrança de tudo o que ela passou, do sofrimento que foi e dos dias e noites em que a assisti até o dia final.

Não que eu queira lembrar e sentir meus olhos úmidos. Parece que tudo faz parte de um processo de cura da alma. O corpo já está refeito. A alma é que ainda se ressente de tudo o que foi vivido. É uma cura lenta, um processo demorado.

Hoje, vendo um pequeno teatro na igrejinha na frente da minha casa, um tipo de catequese, fiquei feliz em ver um coro de meninhas com o rosto pintado como coelhinhos da Páscoa. Era em ensaio improvisado de alguma peça que parece que vão representar. No fim tudo terminava em risos.

Olhei aquelas pequenas figuras cheias de vida e alegria, sorrindo com essas vozinhas sempre estridentes e sorri também. Pareceu que minha mãe gostaria que eu sorrisse assim. O dia pareceu ficar mais claro.

Agora pouco relembrei do riso delas, doce e solto e desejei do fundo da alma, com todas as forças, que no correr da vida tudo dê certo para elas, que sejam felizes. Olhei para o céu estrelado e no cintilar de cada estrela me pareceu que pingos de luz caiam sobre minha alma.

No fundo era a lembrança do momento em que sorriram tão cheias de vida e alegria, que até me emprestaram um pouco disso também. Dessa vez meus olhos não ficaram úmidos.

A marca na alma permanece. A cura é um processo lento, mas nessa noite as estrelas me brilharam com uma vida que eu tinha esquecido.