quinta-feira, 19 de agosto de 2010

L03 Salvos e desaparecidos

Milagre de aspirina...
Dia 19 de agosto de 2010. Já 10 hs. da manhã e estou tomando um café enquanto ouço a rádio Canção Nova com mais um pregador com a prédica do dia. O pregador de nome Daniel relata um milagre. Pela narrativa dele parece milagre. Conta que há algum tempo atrás foi levado por um médico até o leito de uma mulher muito doente. Com AIDS em estado terminal e coberta de feridas a pobre mulher agonizava. Fiquei imaginando a extrema-unção quando ele contou, em êxtase, que Jesus ordenou-lhe que dissesse para a pobre mulher para se levantar e andar, que ela estava curada, porque Jesus agora, naquele momento lhe dava essa graça. E a mulher se levantou e andou. E feita a cura, todos rezaram, se despediram e cada um foi para seu lado

Passados uns três meses o médico o avisou de que a mulher com AIDS agora estava curada, com a mais perfeita saúde, feliz e passeando por aí. A platéia de católicos exulta com o milagre. A pregação continua em tom crescente. O relógio marca 10 e 25 hs.

O pregador Daniel agora recebe ordens diretas de Deus para descer do palco e ir até uma mulher numa cadeira de rodas, que providencialmente estava bem na frente dele. Ordena a ela que se levante e ela, milagre, se levanta. Estava doente de osteoporose mas se levanta. Tudo é fotografado pelo que o pregador conta e a platéia dá pulos de alegria.
Existe no sentimento do ser humano a necessidade de ser amparado e curado, seja como for. Como não poderia deixar de ser, esse sentimento passou para as figuras relatadas como milagrosas na história das religiões. No religião cristã não poderia ser diferente e é, acima de tudo, um sentimento que todo ser humano tem. Não importa se a cura vem de um milagre ou de um bom tratamento médico.

Enquanto ouvia a mudança da programação para outro pregador, fui imaginando como são explorados esses pretensos milagres que fazem a multidão de fiéis atingir um estado de ânimo que alcança a histeria. Aí qualquer discernimento fica toldado. É um fenômeno que se repete em qualquer platéia, sejam fiéis católicos ou evangélicos.
Fica uma coisa interessante por perguntar, mas ninguém pergunta na hora porque estraga a alegria do milagre. O pregador Daniel foi capaz de curar uma mulher com AIDS e essa mulher que deveria estender sua graça a outras pessoas simplesmente desaparece. Deveria ter se tornado a maior pregadora do Jesus que a curou, uma verdadeira missionária da fé com seu exemplo e com sua história, arrebanhando mais fiéis para essa causa. Mas no entanto, na semelhança de uma pessoa que apenas melhorou de uma dor de cabeça tomando uma aspirina, apenas sai caminhando e passeando por aí. O médico que a tudo assistiu deveria reportar tal caso em congressos de medicina, pois estará alí com certeza a possibilidade de salvar milhares de vidas mundo afora. Mas não. O médico apenas fecha sua maleta e retira-se sem maiores comentários. O pregador Daniel apenas relata o milagre. Não sabemos quem foi curado, quem era o médico, nenhuma testemunha existe.

Depois "cura" a idosa com osteoporose, que é claro, também cai na obscuridade e como os outros curados perde-se como uma sombra no meio da multidão. Então nessas ocasiões os pregadores dão vazão à sua veia curadora. Milagres de cura de dor nas mãos ou de cura de insônia tornam a prédica edificante. Impressionantes milagres capazes de deixarem Jesus corado de vergonha. Curar dores nas mãos. Curar insônia. Pobre Jesus, ele só ressuscitou algumas pessoas. A continuarem essas curas, a fábrica de aspirinas vai fechar.

É isso que eu chamo de milagre de aspirina. Um "milagre" que os católicos aprenderam com os pretensos milagreiros evangélicos. Levanta-se uma pessoa que está numa cadeira de rodas, atacada por artrite, osteoporose ou coisa semelhante, tão capaz de caminhar como caminha no consultório do médico para exames. Capaz sim de caminhar por uns 10 minutos, quando depois é obrigada a se sentar, mas nos 10 minutos em que caminha na frente do pregador, padre ou pastor, a platéia explode em gritos e aleluias. E depois ninguém mais presta atenção na pobre velhinha outra vez na cadeira de rodas. Jamais vi pastor ou padre algum fazer caminhar quem tivesse perdido as pernas num acidente. Em todo caso, é interessante ouvir tais programas. Fim de noite. Enquanto escrevo essas linhas fico pensando se o pregador Daniel teria feito algum milagre para socorrer um conhecido padre da rádio Canção Nova. O padre Léo, um dos mais conhecidos pregadores católicos, que também sempre falava de curas, testemunhos e milagres, morreu de câncer. Para ele o milagre não chegou a tempo. Nem o milagreiro.

O que fica doloroso para as consciências é que nunca sabemos quem foi milagrosamente curado de uma doença incurável, quem é o paralítico que hoje está caminhando por aí, quem é o cego que voltou a ver. Os padres e pastores apenas dizem que estão por aí, felizes da vida. A única coisa que podemos saber e ver de verdade e sem dúvidas é onde fica o túmulo de quem esperou um milagre.

domingo, 8 de agosto de 2010

E01 A voz do oráculo

Concessão de filões...
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Nos acontecimentos noticiados nas colunas sociais dos dias de hoje, repete-se de forma não muito surpreendente a notícia de que mais um casal de celebridades decidiu pela separação. A separação de um casal que percebe que sua convivência se tornou impossível é coisa das mais civilizadas e denota a maturidade dos dois frente a um fato da vida. O amor também se esgota, tal qual uma mina de ouro. Tornou-se porém corriqueiro que muitas mulheres em tais casamentos acreditem que a mina de ouro é vitalícia e pior ainda, dispõem de leis absurdas feitas sob medida para facilitar o enriquecimento ilícito.
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Nem todas são assim porém. Algumas mulheres, casando-se novas e passando uma vida inteira devotadas ao trabalho diário de manter um lar e uma família e impedidas de trabalhar ou estudar por isso, merecem sem dúvida, no fim de uma relação, uma pensão por parte de seu ex-marido por esse trabalho a que devotaram sua vida e possibilidades de trabalho, estudo e alguma profissão onde pudessem prover seu próprio sustento. E com esse trabalho ajudaram seu ex-marido a alcançar uma posição segura na vida. Novamente nem todas as mulheres são assim.
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Não tem sido uma visão correta de muitas mulheres, que veem no casamento uma espécie de concessão de um filão de ouro, a ser exlorado eternamente às custas de quem um dia foi seu marido. Algumas ex-esposas de celebridades que nem mesmo conheceram direito as chaves da casa que um dia chamaram de "lar" abocanham na Justiça gordas pensões. Ocorre aí uma deformação jurídica: casamentos que não duram nem meses, rendem às suas ex-proprietárias, digamos assim, pensões vitalícias, tudo em nome de uma visão ultrapassada do modelo familiar, onde o homem é visto como eterno e único provedor das necessidades de uma união extinta, enquanto que os direitos referentes a ela só existem de um lado e para sempre. O que acontece com as celebridades é apenas a face visível e comentada do que acontece nesse modelo de união em todos os níveis sociais.
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Texto originalmente publicado em 21.09.06 em http://vellker.blog.terra.com.br

Diamantes são para sempre...outras coisas também...

O viajante ia fazendo sua peregrinação até que num dia de sol chegou ao templo do oráculo. Apesar de não haver ninguém no templo, rezava a lenda que tudo o que fosse perguntado com sentimento seria respondido.

O viajante sentou-se, deixou sua mente viajar nas brumas do espírito e perguntou:
- Mestre, existe neste mundo alguma coisa que dure mais do que o granito? Um espírito com a aparência de um velho sábio surgiu no altar e com a voz calma e ao mesmo tempo imponente respondeu:
- Sim...É o diamante.

O viajante pensou mais um pouco e perguntou novamente:
- E existe algo que dure mais do que o diamante? E o oráculo novamente respondeu:
- Sim...É o amor entre um homem e uma mulher.

E em sua busca pela sabedoria, mais uma vez o viajante perguntou:
- E diga-me Mestre...Porventura existe algo neste mundo que dure mais do que o amor entre um homem e uma mulher?

O espírito com a voz calma, como a dos grandes iluminados respondeu:
- Sim...Existe...

Admirado, o peregrino perguntou novamente:
- E o que existe neste mundo Mestre, que dure mais do que o amor entre um homem e uma mulher?

E a voz do espírito veio rouca, revelando o segredo:
- É a pensão alimentícia... Links a verificar:
Stephany Brito consegue pensão de 140 mil reais

Sátira do site Kibeloco
Pensão de Stephany Brito é revogada

sexta-feira, 30 de julho de 2010

L02 O medo do inferno

Como as coisas são mantidas... Hoje depois de escutar outra vez um padre falando sobre curas e milagres peguei novamente a Bíblia para ler. Foi uma leitura como essa há coisa de uns 20 anos que me fez ter a certeza de que o Deus nela retratado não existe. Se bem que essa é uma conclusão amadurecida no íntimo das pessoas. Mas só mesmo lendo o verdadeiro livro de horrores que é a Bíblia para dar o passo final para o ateísmo. E depois dele, descobre-se que afinal não só existe vida fora da crença cristã, como também ficamos livres de dívidas eternas, pecados cometidos por Adão e Eva, infernos, purgatórios, dívida com Jesus e tudo o mais que os antigos sacerdotes judeus e cristãos inventaram há mais de 2.000 atrás com uma só finalidade: viver às custas dos outros.

Qualquer crente apresenta duas reações quando isso é dito: irritação ou dúvida. Se ficar irritado é crente dos que aceitam tudo o que está escrito na Bíblia, como por exemplo assassinato, genocídio, racismo e roubo, cometidos em nome de Deus e por inspiração de Deus. Se ficar em dúvida, é crente do tipo que leu e não conseguiu acreditar naquilo, mas continua indo na igreja e ainda acompanha a procissão, mas com a sensação de que não quer ir até o fim da missa.


Sejá lá como for, ouvindo o padre e relendo os trechos mais sangrentos do Velho Testamento, me lembrei das notícias de padres envolvidos em escândalos de pedofilia. Quando o padre fala disso, diz que é perseguição contra a Igreja Católica. Do outro lado temos os pastores evangélicos empenhados em comentar isso, mas silenciando quando o assunto é algum bispo dono de alguma igreja envolvido em desvio do dinheiro dos fiéis. Tudo também é atribuído a uma perseguição maldosa.

Olhando as fotos de padres, pastores e bispos tanto evangélicos como católicos, todos barrigudos e que falam em viver como Cristo e a cada ano aparecem mais gordos, vi-os como legítimos filhos de Eleazar, um dos sacerdotes que ao lado de Moisés mais soube viver a vida às custas dos outros. Lembro dos filmes e imagens em que a figura desses dois piratas do deserto aparece glamurizada como heróis míticos quando na verdade eram salteadores e assassinos cruéis.

Mas tudo que era dito e ordenado por eles era anunciado como a palavra divina, que merecia obediência imediata e reverente. Nos tempos antigos sequer se podia pensar em não acreditar ou não fazer o que mandavam sem que se fosse imediatamente apedrejado ainda ouvindo as palavras que descreviam o Inferno, com o que esses sacerdotes conseguiam tudo o que queriam. Obedecer à própria consciência, questionar coisas duvidosas, desacreditar das fábulas da Bíblia era e é ainda pecado mortal.

Vez por outra colocarei aqui algumas das "palavras da salvação" que eles zelosamente passam a vida inteira sem mostrar para seus fiéis, pois as próprias palavras da Bíblia seriam uma vergonha teológica sem tamanho. Aliás as escolas de teologia só ensinam uma coisa aos teólogos: como fazer um verdadeiro trapezismo mental para justificar os crimes ditos inspirados por Deus e ao mesmo tempo atribuir razão e lógica aos absurdos da divindade. Poucas pessoas sabem mas da mais de 1.000 páginas da Bíblia, ao longo de toda uma vida de crença, os fiéis são induzidos pelos sacerdotes a lerem umas 100, isso os leitores mais ávidos. A esmagadora maioria do rebanho cristão se contenta em ouvir prédicas sobre o Gênesis, Moisés, Sermão da Montanha e Apocalipse. Muitos andam 60, 70 anos com esse livro sob os braços e na verdade só conhecem algumas páginas dele. É assim que essa mistificação é mantida.

Volto a atenção para o rádio e ouço o padre no mesmo molde dos pastores evangélicos dizendo que o verdadeiro cristão não segue sua consciência, nem a inteligência, nem a razão e nem a lógica mas sim a consciência divina a qual, é claro, oferece todas as respostas a todas as dúvidas. E só ele é, como não poderia deixar de ser, o representante autorizado da voz divina. Portanto ele exige a obediência dos fiéis e também o dízimo. Nas rádios evangélicas os pregadores seguem o mesmo ritual de induzir seus seguidores à auto-humilhação, deixando no alto do púlpito apenas a figura do pastor.

E triunfantes, padres e pastores, ensinados na velha escola do terror, deixam entrever em seus sermões que ousar acreditar no contrário é o caminho mais certo para o Inferno. Acima de tudo eles só tem isso para mostrar. O Paraíso é só um acessório que vem com o dízimo.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

L01 Os homens de preto

A vida em preto...
Um grande sucesso de audiência no mundo todo foi o filme "Os homens de preto" onde Tommy Lee Jones e Will Smith interpretavam dois divertidíssimos agentes de uma organização mundial, destinada a acolher e proteger no nosso planeta alienígenas amistosos em trânsito e a combater sem pena alienígenas perigosos.

Quem não riu com as peripécias dos dois, que além de esbanjarem carisma, distribuiam simpatia em sua visão bem humorada do mundo que tinham que proteger e das tiradas cheias de humor que viviam com os extraterrestres amigos?

Foi de forma parecida que fui ouvindo o programa da conhecida rádio católica "Canção Nova" com as prédicas de um padre sobre como viver santamente o namoro. De certa forma, acredito eu, vestido de preto e falando sobre esse tema que posso supor que lhe é absolutamente desconhecido, o padre pareceu-me na imaginação uma mistura de homem de preto com alienígena. Tem um roupa peculiar e ao que tudo indica chegou aqui há pouco tempo mas se dedica a converter os terráqueos à sua visão do sexo e posso entender que pelas regras da igreja dele, nunca tenha tido a dita relação, alegria dos namorados e preservação da nossa espécie.

Sim, porque em última análise fala sobre o relacionamento sexual, que pretende que seja ouvido e seguido ao pé da letra por sabe-se lá quantos casais de namorados que estejam a ouvi-lo.

Esclareço que sou ateu, crença por assim dizer, a que me converti lá pelos 35 anos, depois de uma mocidade de dúvidas e ao final disso de decidida leitura da Bíblia, quando após ler atentamente o verdadeiro teatro de horrores que dizem ser palavra da salvação, entendi que afinal não existe deus nenhum e acreditem, existe vida plena depois de aceitar-se isso, uma vida até melhor, sem as sombrias nuvens da culpa e da condenação eterna.

Mas gosto ainda de ler as revistas católicas que encontro em salas de espera de consultórios ou dentro de igrejas onde entro quando uma chuva me pega de surpresa. Afinal, além do lugar quieto, você tem onde sentar até que a chuva passe. Destaque para as igrejas como a Universal do Reino de Deus, que oferece o jornal grátis, com bons artigos para reflexão e no fim do corredor, banheiros higiênicos e de impecável brancura.

E fui ouvindo os conselhos do padre, dizendo que o namoro tem que ser vivido santamente e volta e meia lendo cartas de namorados que diziam que viviam seu namoro santamente. Ao que tudo indica viver o namoro santamente é namorar na casa dos pais, com o papai e a mamãe do rapaz ou da moça presentes ao alegre enrosco amoroso dos dois.

Depois o padre advertia, acompanhado pela apresentadora, com conselhos sobre não ser um namoro santamente vivido esses em que o casal vai numa balada, namora dentro do carro ou que pecado, dentro do motel, que horror.

Prosseguindo em pormenores e inclusive condenando o uso de preservativos, essa inocente capinha de borracha, para ele crime dos crimes, o padre fazia uma colorida descrição das formas em que um namoro deve ser santamente vivido.

Fiquei aqui a pensar comigo. Se perguntarmos ao padre se ele já namorou, é provável que diga que não, que iniciou sua vocação sacerdotal cedo. Nem faz idéia do que é namoro. Se quisermos saber se ele já teve relações sexuais, Vade Retro dirá ele empunhando o crucifixo, nunca teve relações sexuais, sua igreja assim o proíbe. Tão coerente quanto isso, só um leigo dizendo numa rádio como os padres devem rezar a missa.

Mas se nunca namorou, nunca teve relações sexuais, como fica a dar conselhos num programa de rádio sobre como deve ser o namoro ou como deve ser feito o sexo? Só restam alternativas nada confortáveis. Ou o padre fala porque deu algumas escapadas para namorar durante sua formação no seminário ou então depois de ordenado foi ver em pessoa como é fazer sexo, para não ter mais dúvidas ao dar conselhos. Fora isso como vai falar do que não faz e não conhece?

As outras alternativas o deixam numa situação de palestrante conhecedor de constrangedores segredos. Ter lido atentamente sobre namoro e ato sexual em revistas ilustradas ou recebido o caridoso conselho e descrição do namoro e do sexo da parte de algum casal da sua igreja. Que mais pode ter sido então? Se não fez as duas coisas, não sabe como é.

Muitas pessoas ainda se lembram do caso de um padre cantor salesiano, que abandonou a batina e se casou com uma conhecida apresentadora de televisão. Se acreditarmos que ele a conheceu, apaixonou-se e largou a batina no mesmo dia para casar, ficamos a imaginar que exatamente por não entender do assunto, perdeu-se ele nos caminhos do namoro, do amor e do sexo por muito tempo e em total segredo, como fazem os namorados hoje em dia, até sentir que essa história de viver tudo santamente é um aborrecimento sem fim. E lá se foi ele, sem medo de ser feliz. Com a desenvoltura que esses padres tem ao falar, podemos imaginar quantos segredos eles tem. Talvez sim, talvez não.

Fui ouvindo o padre em suas admoestações finais e fiquei a relembrar dos dois personagens do filme. Eles pelo menos tinham uma vida divertida, sem culpas e carregada de humor.

Enquanto isso seguem os padres, de preto e numa vida também de preto, pretendendo dar conselhos sobre o que é branco.

terça-feira, 22 de junho de 2010

C01 Pecados de guerra

Um filme para não esquecermos...

"Pecados de guerra" é um filme que impõe perguntas. As mesmas que fazemos hoje no Brasil. Depois do incidente em São Paulo onde um jovem da periferia, mais um, foi espancado até a morte na frente de sua mãe por policiais militares agora presos, é necessário repensarmos o que é nossa polícia. Repensar é a única coisa que uma população indefesa pode fazer por ora. A pergunta que podemos começar fazendo a nós mesmos é porque nenhum jovem que mora no bairro do Morumbi ou Jardim Europa em São Paulo é morto da mesma forma. Os policiais sabem a resposta. Nestes bairros riquíssimos moram importantes autoridades estaduais e federais, políticos, magistrados e outros capazes de triturar até mesmo o comandandate da polícia. Publicado originalmente em 27.05.06 em http://vellker.blog.terra.com.br/

Filme recomendado
Pecados de Guerra

1989 - Direção de Brian de Palma, com Sean Penn, Michael J. Fox - LK-TEL Vídeo

Muitas vezes no cinema percebemos o quanto um filme mostrando outro povo, outro mundo, outros personagens pode na verdade, trazer um reflexo igual ao que vemos nas ruas nesses dias. Baseado em fatos reais, a partir da reportagem e livro denúncia de um repórter americano em 1969, sobre o sequestro de uma jovem vietnamita, que foi levada de uma aldeia por soldados americanos, violentada e morta durante uma patrulha.
Ao retornarem para a base, tentaram ocultar o fato, já que um dos soldados que tentara salvar a moça e quase tinha sido morto por isso, havia denunciado o acontecido para seu líder de pelotão, recebendo como resposta nada além de pouco caso.
No desenrolar da narrativa, ele, ao confrontar-se com a frieza com que não só seu pelotão, mas todos os soldados recebiam o acontecido, começa a se ver ameaçado de morte, escapando de atentados e perdendo a capacidade de distinguir o que é a defesa de uma corporação e a ocultação de um assassinato que levaria todos para a cadeia em suas cidades.

Destaque para a interpretação do ex oficial Dale Dye, que realmente combateu no Vietnã, atuando como conselheiro militar do diretor e também em ponta como ator, no papel do oficial que tenta encobrir tudo com a transferência do soldado.


No final, como foi na realidade, tudo acaba sendo descoberto pela ação da imprensa. Ao mesmo tempo que pensamos em ir para a locadora, podemos saber das últimas notícias sobre a execução de 109 suspeitos nas ruas nos incidentes desta semana e pensamos sobre o quanto podemos estar seguros ou inseguros, se formos vistos como suspeitos por uma tropa armada e assustada nas ruas.

E de como seríamos considerados um pecado de guerra se fôssemos atingidos. Ou como dizia um dos soldados ao tentar evitar a denúncia, no filme ´...O que acontece na selva, fica na selva...´.

O que acontece nas ruas, fica nas ruas, é o que podemos depreender do comportamento do comandante da PM de São Paulo ao falar para a imprensa sobre os 109 mortos que...nenhum suspeito inocente foi morto...

Interessante. Se eram apenas suspeitos, porque foram mortos? E se eram suspeitos, eram suspeitos do quê? Então a polícia admite que apenas a simples suspeita basta para qualquer um nas ruas cair crivado de balas? Estamos vivendo assim o mesmo tempo de insegurança que viviam os cidadãos de países como a Guatemala, El Salvador e Nicarágua de Anastasio Somoza, onde a simples suspeita ou a falta da carteira de identidade levava um cidadão a ser executado porque suspeitavam dele.

Nada poderia ser pior para qualquer um do que ver, que na realidade, essa corporação policial só se preocupa em se defender e defender os que a defendem, sem maiores considerações que não uma espécie de irmandade tribal, excluindo totalmente o cidadão comum de seus cuidados e colocando na alça de mira de sua vingança qualquer um pelo simples fato de parecer...suspeito. Não é preciso ser culpado. Hoje realmente não estamos livres de sermos nos dias que correm, de sermos confundidos com suspeitos.

No entanto percebemos que a suspeição da polícia é extremamente seletiva. Não consta que tenham caído suspeitos que andavam pelos bairros nobres, de gente rica, poderosa e influente, como os Jardins, Morumbi ou Avenida Paulista. Onde mesmo que o passante lá seja suspeito, com certeza terá uma família que será capaz de dar o troco, seja por via judicial, política ou executiva.

Para que um tribunal? Para que um judiciário, um juiz, um promotor, um defensor ou um jurí, se o guarda da esquina pode decidir que você é suspeito e portanto apertar o gatilho...?

Links a verificar:
Guerra do Vietnã
Pecados de Guerra
Defensor comenta as mortes e fala de inocentes atingidos

domingo, 13 de junho de 2010

R25 Dia dos Namorados...sozinho...

Sonhos de um dia... Ontem, Dia dos Namorados. Estou só em casa. a mulher que amo, distante. Nós dois, por contingências da vida estamos ainda distantes, mas o amor floresce em nossos corações. E toda vez que podemos estar juntos, tudo o que sonhamos, vivemos, de corpo e alma.

Ontem, um dia especial de lembranças desse amor. Relembro os dias que já vivemos, penso no reencontro que logo teremos e ao mesmo tempo, se sinto uma alegria profunda, sinto também um tristeza. A única coisa que me deixa melhor é essa trama, diria, esse jardim de lembranças, cheio de flores que nós dois plantamos nesse tempo todo.
Abro o guarda-roupa para pegar mais um agasalho e vejo a marca de baton que pedi a ela que deixasse no espelho. Está lá até hoje, como uma presença. Olho para alguns livros do meu lado na cama e me lembro da figura dela, deitada, quase pegando no sono, quando está aqui, depois que voltamos de um passeio, de um cinema. Me lembro de lençóis molhados de suor e amor das noites de verão e sinto saudades do calor de noites assim. Calor do tempo e calor do amor.

Nessas noites de frio, relembro de quando nos cobrimos e nos abraçamos. Do momento em que ela sempre pede mais um beijo antes de dormir. De ver seu sono chegando enquanto a abraço por trás e sussurro palavras de carinho em seu ouvido. Eu sempre durmo depois disso.

Penso em ver um filme e antes disso lembro dos momentos em que nos emocionamos na nossa cama, assistindo a filmes que mostravam grandes histórias de amor. Lembro de ocultar uma lágrima enquanto assistia o filme "Anna Karenina" com ela, uma história de amor que tira lágrimas de qualquer um.
Ligo a televisão e acompanho uma divertida comédia romântica. No final tudo dá certo para a moça do filme, que termina junto do seu grande amor. Olho mais uma vez para o lado em que ela dorme na cama e por um momento posso sentir sua presença ao fechar os olhos.
Tenho vivido assim, com essas lembranças e sempre que podemos, estamos juntos e então flui todo esse amor guardado por tanto tempo, com essa distância toda entre nós. Um dia não teremos mais essa separação.

É um dia especial mesmo por poder sentir tudo isso. Uma vez assistimos o filme "As pontes de Madison". Quem não abre o coração para o amor vendo um filme desses? E eu alí, junto dela, sentindo sua pele macia, seu carinho, sua emoção vendo o filme. Emocionar-me junto com ela. É coisa que me deixa de olhos úmidos agora.

Lembro dela quando saímos uma vez, seu olhar alegre, ela ajustando a alça do seu vestido, perguntando se estava bem. Estava linda. Seu ombro sempre pedindo um beijo e nós caminhando e conversando e eu sempre notando seu olhar brilhante enquanto ela me contava coisas da vida.

E me lembro também de quando chega o momento da partida, minha ou dela. Quando nos abraçamos e vejo seus olhinhos molhados e os beijo. Se quem diz amar, realmente sente alguma coisa no momento da separação, então ama mesmo.

Assim, nesse dia, tenho lembranças, tenho sonhos e percebo que no fundo não estou só. Lembranças, sonhos e esse amor todo. É como se fosse uma ponte até ela.

Até parece um filme que vimos.

terça-feira, 1 de junho de 2010

D12 O príncipe valente

Vida de cachorro...
Tenho aqui comigo um bom amigo. Usualmente as pessoas referem-se aos seus cães como donos. Fico a pensar se os cães não se portam da mesma forma ao conversarem com seus amigos caninos sobre seus auto-supostos donos, em seu idioma de latidos.

Seja lá como for creio que ele me considera amigo também De toda forma nossa amizade foi crescendo ao longo desses anos. Há 7 anos atrás ganhei esse amigo. Era tão pequeno que nos primeiros dias dormiu numa caixa de sapatos acolchoada. Aos poucos foi preciso uma caixa de papelão, com uma portinha, onde ele se recolhia com ares de proprietário, não só da cixa mas como da casa também. Atravessei como todos os que se aventuram a ter um amigo assim, o martírio de noites ouvindo seus ganidos assim que apagava a luz, até que ele perdeu o medo do escuro.

Com ele já um pouco maior, percebi que a grande diversão dele era dar um pulo e abocanhar lençóis e roupas no varal, que tive que subir. Mas enquanto crescia, era mesmo divertido levá-lo para passear. Buliçoso e curioso, descobria o mundo com seu focinho imenso e suas orelhas sempre em pé. E ao mesmo tempo desenvolvia um desconcertante senso de coragem, todo próprio.

Eu já o vi correr de cachorros pequenos e ao mesmo tempo, alguns quarteirões à frente dar uma corrida em cachorros do mesmo tamanho. Aos poucos percebi que quando ele corria dos pequenos era como se dissesse que só estava de passagem pelo quarteirão e não queria encrenca. Haja visto que quando bem pequeno adotou como mãe uma gata velha que vivia no quintal.
E quando late no quintal da frente então? Uma fúria, mas assim que abro o portão para a visita ou carteiro, ao invés de avançar contra o coitado, passa a latir de uma razoável distância. E depois que a visita vai embora, dá mais uns latidos de advertência, sem dúvida para mostrar que vale a ração que come, enquanto dá voltas no quintal para mostrar a estranhos que alí está um príncipe valente. Depois entra e se deita no canto da sala, seu lugar preferido com cara de dever cumprido.
Mas o dia em que ri mesmo foi quando ele entrou num pasto com uma boiada e latiu corajoso para todos os bois. Os bichos deixaram de comer capim e vieram em peso para cima dele. Até hoje rio ao lembrar de quando vi o olhar desconcertado que ele me lançou, assustado com a manada que vinha para cima dele. Abri o arame farpado e ele dizendo obrigado com o olhar pôs-se a latir valente do lado de fora do pasto. Foi aí que não tive mais dúvidas. Ele era mesmo um príncipe valente, á sua moda, é claro. A boiada veio mansa, acostumada a seguir os latidos do cachorro da fazenda. Mas ele que viu aquilo pela primeira vez, correu o quanto pôde. Para disfarçar, andou pelo resto do caminho todo altivo, como se a boiada é que tivesse corrido dele.

Nessas noites de frio, ao deixar uma porção de ração para ele, abro a cortina de sua casinha e o vejo feliz e relaxado. Lá dentro, com a madeira e o estofamento aquecidos, está um ar quente que o protege do frio. Ele abana o rabo ao ganhar mais um pedacinho de salsicha e fica confortável, pronto para mais uma noite de sono. E de latidos se preciso for.

No outro dia, de tarde, quando o sol já aqueceu o cimento do quintal, ele sai, deita e aproveita esses momentos até começar a esfriar de novo. Mal alguém começa a conversar na rua, ele sai latindo como se fosse um leão, até ver que são apenas vizinhos, que ele já conhece.

Mas volta com cara de missão cumprida e tendo provado mais uma vez que vale a ração que come, ele se deita para aproveitar mais uma dormida sobre o cimento quente, enquanto o sol afasta todo frio.

Não é vida de cachorro, é vida de príncipe. Valente a seu modo, é claro.